O uso de crédito para despesas básicas como supermercado e combustível tem impulsionado o endividamento das famílias brasileiras.
(Imagem: gerado por IA)
A cena é cotidiana e parece inofensiva: ao passar as compras do mês, abastecer o carro ou comprar um remédio, o consumidor é prontamente questionado se deseja parcelar o valor. O que antes era restrito a eletrônicos ou eletrodomésticos, agora fragmenta o custo do arroz e do combustível em três ou quatro vezes, criando uma ilusão de fôlego financeiro que pode custar caro no final do mês.
Na prática, essa facilidade muda mais do que parece e acende um sinal de alerta entre economistas. De acordo com Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, o uso do crediário para despesas ordinárias revela uma desorganização perigosa, onde o crédito deixa de ser uma ferramenta de investimento para se tornar um complemento artificial da renda mensal.
O grande risco dessa estratégia é a perda do controle sobre o fluxo de caixa. Quando o consumidor parcela o supermercado, ele compromete a renda de meses futuros com um consumo que já foi esgotado. Isso gera um efeito cascata onde, inevitavelmente, o limite do cartão passa a ser confundido com o próprio salário, obscurecendo a visão real sobre quanto dinheiro realmente sobra no bolso.
O que está por trás da ansiedade de consumo
A oferta agressiva de crédito alimenta o que especialistas chamam de "ansiedade de consumo". Katherine Hennings, pesquisadora da FGV, observa que o comportamento atual é focado na antecipação máxima do prazer de compra, estimulada por propagandas e influenciadores digitais que raramente mostram o lado menos glamouroso: a fatura que chega logo em seguida.
Muitas vezes, a decisão de parcelar não vem de uma necessidade real de dividir o valor, mas de um impulso gerado pela facilidade. E é aqui que está o ponto central: sem o hábito de projetar os gastos a longo prazo, o brasileiro acaba verificando apenas se a parcela "cabe no mês", ignorando que a soma de dezenas de pequenas prestações pode sufocar o orçamento de forma irreversível.
Essa falta de educação financeira é o combustível para os juros mais altos do mercado. Quando a conta não fecha, o consumidor recorre ao cheque especial ou ao rotativo do cartão de crédito, onde as taxas são proibitivas. Segundo Fabio Bentes, da CNC, o hábito de não comparar o custo do financiamento é o primeiro passo para o superendividamento.
O impacto real da inadimplência no Brasil
Os números refletem a gravidade da situação. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 81,7 milhões de pessoas inadimplentes, segundo a Serasa Experian. Desse total, a grande maioria (78%) pertence a famílias que recebem até dois salários mínimos, justamente a camada da população mais vulnerável às variações de preço e à falta de acesso a créditos com juros menores.
Para quem ganha menos, as opções de crédito costumam ser as mais caras. Sem a possibilidade de crédito consignado ou garantias, esses brasileiros acabam drenando parte considerável de seu suado salário para o sistema financeiro, pagando juros sobre bens que deveriam ser essenciais. No fim das contas, a renda do trabalho é transferida para os bancos através de taxas evitáveis.
Programas de renegociação, como o Desenrola, surgem como medidas de emergência para desafogar o sistema, mas não resolvem a raiz do problema. A solução estrutural passa pela conscientização de que limite de crédito não é renda extra. Se o cidadão ganha R$ 5 mil e possui R$ 5 mil de limite, ele ainda possui apenas R$ 5 mil para gastar, e ignorar essa aritmética básica é o caminho mais rápido para o abismo financeiro.
O cenário futuro exige cautela e uma mudança de mentalidade. Enquanto o crédito continuar sendo usado para tapar buracos no orçamento doméstico, a inadimplência continuará batendo recordes. A verdadeira liberdade financeira não vem da capacidade de parcelar tudo, mas da segurança de saber que cada centavo gasto está sob controle, garantindo que o consumo de hoje não se transforme na angústia de amanhã.