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Aperto financeiro

Quase metade dos brasileiros recorre a 'bicos' para fechar as contas em cenário de aperto financeiro

Com 45% da população em busca de renda extra e 67% endividados, levantamento do Datafolha traça um raio-x preocupante da vulnerabilidade financeira no Brasil.

27 abr 2026 - 08h42 Joice Gomes   atualizado às 08h43
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Quase metade dos brasileiros recorre a 'bicos' para fechar as contas em cenário de aperto financeiro Trabalhadores brasileiros buscam alternativas para complementar renda e cobrir despesas básicas que o salário formal já não alcança. (Imagem: gerado por IA)

Cerca de 45% dos brasileiros precisaram buscar fontes alternativas de renda nos últimos meses para conseguir manter os compromissos financeiros básicos em dia. O dado, revelado por um novo levantamento do Datafolha, expõe uma realidade de sobrevivência: o trabalho formal, embora ativo, já não tem sido suficiente para cobrir o custo de vida crescente no país.

A percepção de insuficiência financeira é compartilhada por 59% das famílias, que admitem que o dinheiro que entra mensalmente não dá conta das despesas. Esse cenário de vulnerabilidade é ainda mais crítico entre os que ganham até dois salários mínimos; nesse grupo, 7 em cada 10 brasileiros afirmam que as contas simplesmente não fecham.

Mas o impacto vai além da base da pirâmide social. Surpreendentemente, a busca por atividades complementares é mais intensa entre pessoas com ensino médio e superior. Isso indica que, mesmo com maior qualificação, o poder de compra está sendo corroído, empurrando profissionais para jornadas duplas fora do mercado formal.

Por que a renda extra se tornou uma necessidade de sobrevivência

Na prática, isso muda mais do que parece. O descompasso entre a remuneração média e a inflação real de itens básicos criou um fenômeno onde o emprego estável já não garante tranquilidade. Para muitos, o "bico" deixou de ser um projeto paralelo para se tornar o pilar que evita o colapso do orçamento doméstico.

Enquanto os mais escolarizados se desdobram em novas funções, a parcela mais pobre da população enfrenta outro dilema: a falta de oportunidades. Entre os brasileiros com ensino fundamental, a movimentação por renda extra é menor, refletindo uma maior presença de aposentados e pessoas fora da força de trabalho, que acabam ainda mais expostas à precariedade.

E é aqui que está o ponto central: a perda de rendimentos atingiu em cheio a faixa etária dos 35 aos 44 anos. Quase metade desse grupo relatou queda nos ganhos recentemente, o que gera um efeito dominó sobre o consumo e a qualidade de vida de famílias inteiras que dependem desses provedores.

O impacto prático no prato e no bem-estar das famílias

A pressão financeira forçou mudanças drásticas de hábito. Segundo o estudo, 64% dos brasileiros cortaram gastos com lazer e 60% trocaram marcas habituais por opções mais baratas ou deixaram de comer fora. O dado mais alarmante, porém, é que 52% da população reduziu a quantidade de alimentos comprados no supermercado.

O endividamento acompanha esse cenário de privação. Hoje, 67% dos brasileiros possuem alguma dívida e 21% já estão com pagamentos em atraso. O cartão de crédito, utilizado por 57% da população, tem sido a principal boia de salvação e, ao mesmo tempo, a maior armadilha financeira para as famílias brasileiras.

O uso do crédito rotativo, conhecido pelos juros que ultrapassam 14% ao mês, é uma realidade frequente para quase um terço dos entrevistados. Essa dependência do crédito para itens básicos, como o parcelamento de compras em supermercados e contas de luz, evidencia que o orçamento está operando no limite absoluto.

O que pode acontecer a partir de agora

A ausência de uma rede de proteção financeira é outro fator de risco. O levantamento aponta que 66% dos brasileiros não possuem qualquer reserva de emergência. Em caso de perda total de renda, a maioria não teria como se sustentar por mais de três meses, o que mantém o sentimento de insegurança econômica em níveis elevados.

A fragilidade na organização das finanças, onde apenas 44% declaram fazer um controle detalhado de gastos, aliada ao incentivo ao consumo por impulso via internet, sugere que o caminho para a recuperação será longo. Sem um ajuste entre salários e o custo de vida real, a tendência é que o brasileiro continue dependente de soluções informais para sobreviver.

Diante desse quadro, a situação financeira do país é vista de forma negativa por metade da população. O desafio que se desenha para os próximos meses não é apenas o controle da inflação oficial, mas a restauração da dignidade financeira de milhões de brasileiros que, hoje, trabalham muito apenas para garantir o essencial.

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