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Ter, 06 de Outubro
Economia

O fim da era do custo baixo: Giannetti alerta para o colapso da hiperglobalização

Eduardo Giannetti analisa o fim da hiperglobalização e como a troca da eficiência pela segurança impacta a economia, a política e o futuro estratégico do Brasil.

26 abr 2026 - 20h43 Joice Gomes
O fim da era do custo baixo: Giannetti alerta para o colapso da hiperglobalização O economista Eduardo Giannetti durante entrevista analisando as mudanças na ordem econômica global. (Imagem: gerado por IA)

A era em que o mundo corria cegamente atrás do menor custo de produção, ignorando riscos geopolíticos e dependências perigosas, chegou oficialmente ao fim. O que estamos presenciando não é apenas uma crise passageira, mas o desmoronamento de uma ordem econômica que priorizava a eficiência máxima acima de qualquer outra variável.

Para o economista e escritor Eduardo Giannetti, a desestabilização de rotas vitais como o Estreito de Ormuz e a crescente guerra tarifária entre gigantes globais são os sintomas terminais desse modelo. Em entrevista à TV Brasil, ele aponta que o mercado global está abandonando a "lógica fria" da hiperglobalização para abraçar uma nova prioridade: a segurança nacional e a diversificação de suprimentos.

Na prática, isso muda mais do que parece. Se antes a regra era concentrar a produção onde fosse mais barato, hoje o temor de um colapso logístico fala mais alto. O exemplo mais dramático está na tecnologia: Taiwan detém hoje 90% da produção dos chips mais avançados do mundo. Em um cenário de conflito, o planeta simplesmente pararia, o que força as nações a buscarem novos parceiros a qualquer custo.

O que está por trás do ressentimento global

Mas o impacto vai além das prateleiras e das fábricas. Giannetti destaca um abismo financeiro crescente: enquanto na fase inicial da hiperglobalização havia cerca de 1 dólar em ativos financeiros para cada dólar produzido no PIB mundial, hoje essa proporção saltou para uma escala de 9 a 12 para 1. Essa "financeirização" desconectou a riqueza do mundo real, concentrando trilhões em poucas empresas de tecnologia e inteligência artificial.

Essa mudança profunda teve um custo social devastador para o Ocidente. O economista utiliza uma metáfora poderosa para explicar a ascensão da extrema direita: o deslocamento do trabalho. Se um problema surge em Detroit, o capital simplesmente fecha as portas e abre em Xangai, deixando para trás uma classe média ressentida e sem poder de barganha.

Esse sentimento de abandono é, segundo Giannetti, o combustível principal para o populismo nacionalista que varre o globo, lembrando em muitos aspectos o clima de instabilidade dos anos 30. A entrada de centenas de milhões de trabalhadores asiáticos no mercado global tirou multidões da miséria, mas gerou um terremoto político nas democracias liberais que o mundo ainda tenta digerir.

O trunfo estratégico do Brasil na nova ordem

E é aqui que está o ponto central para o nosso futuro: no novo desenho do comércio mundial, o Brasil possui o que todos precisam. Com o fim da dependência de fornecedores únicos, o mundo passa a buscar segurança alimentar e energética, além de minerais críticos para a transição verde. O Brasil, com sua biodiversidade e matriz energética limpa, surge como o parceiro ideal.

No entanto, o economista faz um alerta crucial: não podemos aceitar o papel de meros exportadores de matéria-prima bruta. O desafio histórico é industrializar essas vantagens comparativas, aproveitando a disputa entre potências para negociar termos que tragam tecnologia e valor agregado ao país. É uma oportunidade de ouro para o Brasil deixar de ser o "eterno país do futuro" e se tornar um pilar da estabilidade global.

Por fim, Giannetti conecta essa transição econômica ao maior desafio da nossa espécie: a crise climática. Ele é enfático ao dizer que o negacionismo é um conforto perigoso. Os governos podem até ignorar o clima, mas a realidade dos eventos extremos não ignorará os governos. O custo de agir agora será alto, mas a "via dolorosa" de esperar o pior será impagável, definindo o sucesso ou o fracasso das nações nas próximas décadas.

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