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Economia

Juros do cartão batem 436% ao ano em fevereiro e agravam crise de endividamento das famílias brasileiras

30 mar 2026 - 13h50 Joice Gomes
Cartões de crédito guardados dentro de uma carteira. Dados do Banco Central revelam juros recorde de 435,9% ao ano no rotativo do cartão em fevereiro. (Imagem: Reprodução/Canva)

O cartão de crédito rotativo atingiu 435,9% ao ano em fevereiro, o maior patamar em anos, segundo estatísticas oficiais do Banco Central divulgadas nesta semana. Esse salto de 11,4 pontos percentuais ante janeiro pressiona ainda mais as finanças das famílias brasileiras já endividadas.

Com mais de 40 milhões de pessoas no vermelho por causa do rotativo, o cenário revela um ciclo vicioso onde juros compostos transformam dívidas pequenas em montanhas financeiras impagáveis em poucos meses.

Endividamento alcança recorde histórico

Em fevereiro, 80,2% das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida, o índice mais alto desde o início da série histórica em 2010, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O cartão de crédito lidera com folga, sendo responsável por 85% dos casos de endividamento.

Famílias de baixa renda, que ganham até 10 salários mínimos, comprometem 29,4% da renda mensal com dívidas – também um recorde. Carnês (16%), financiamentos pessoais (12,3%) e moradia (9,8%) completam o quadro preocupante de sobreendividamento generalizado.

A inadimplência no rotativo chegou a 63,5%, evidenciando que milhões de brasileiros entram no crédito emergencial sem condições de quitar o principal, alimentando uma bola de neve financeira.

Por trás da escalada dos juros

A taxa abusiva do cartão reflete um ambiente de política monetária restritiva, com a Selic mantida em 15% ao ano até março, quando o Copom autorizou o primeiro corte em meses, para 14,75%. Bancos incorporam esse custo básico mais spreads elevados por inadimplência e operação.

Outras linhas também encareceram: cheque especial saltou para 147% ao ano (+9,6 pontos percentuais), enquanto crédito consignado, opção menos onerosa, subiu para 28,2%. Uma dívida de R$ 1 mil no cheque especial vira R$ 2,47 mil após 12 meses de juros acumulados.

Em janeiro, a taxa média de juros para famílias já era de 32,8% ao ano – quase o dobro da Selic –, com o cartão parcelado após 30 dias no rotativo batendo 194,9% ao ano.

Impacto desproporcional nas classes baixas

Famílias de menor poder aquisitivo sofrem o pior do aumento, usando cartão para despesas básicas como alimentação e contas essenciais. A alta informalidade no mercado de trabalho agrava o problema, pois receitas instáveis não acompanham os juros exponenciais.

O comprometimento médio da renda com dívidas chegou ao maior nível histórico, freando o consumo e impactando comércio, serviços e toda a cadeia econômica. Economistas veem risco de retração se não houver alívio rápido nas taxas e maior formalização do emprego.

Regiões como Norte e Nordeste registram os maiores índices de endividamento proporcional à renda, enquanto capitais do Sudeste concentram o maior volume absoluto de dívidas no cartão rotativo.

Estratégias para romper o ciclo vicioso

Evitar o rotativo é a regra de ouro: pague sempre o valor total da fatura. Se já estiver no vermelho, priorize renegociações com descontos de até 90% oferecidos pelos bancos em feirões promovidos pelo Banco Central e Serasa.

Veja as principais saídas práticas:

  • Portabilidade de dívida para consignado (taxas abaixo de 3% ao mês) ou garantia de imóvel/veículo.
  • Empréstimos consignados via INSS para aposentados, com descontos diretos na folha.
  • Apps de gestão financeira para rastrear gastos e criar alertas de vencimento de faturas.
  • Corte imediato de despesas supérfluas e criação de fundo de emergência de 3 a 6 meses de despesas.
  • Pacotes de renegociação online dos próprios bancos, muitas vezes com carência inicial.

Mais de 70% das renegociações resultam em quitação imediata ou parcelas acessíveis, limpando o nome e liberando crédito mais barato no futuro.

Desafios e perspectivas para 2026

O primeiro corte na Selic sinaliza alívio gradual, com projeções de 12,25% até dezembro. Porém, o repasse para o cartão rotativo é lento, podendo levar meses para cair abaixo dos 400% ao ano.

O Banco Central monitora de perto via relatórios mensais, ajustando a política para conter inflação em 3,99% – dentro da meta. Riscos fiscais e choques externos, porém, mantêm a cautela do Copom.

Para as famílias, 2026 será teste de resiliência: educação financeira básica pode prevenir que juros do cartão de crédito transformem emergências em crises crônicas. O momento exige disciplina para não repetir fevereiro como padrão mensal.

Lições de um mês crítico

Fevereiro expôs fragilidades estruturais no crédito ao consumidor brasileiro. Com 40 milhões presos no rotativo, o país precisa urgentemente de maior transparência nas taxas e incentivo a alternativas baratas.

Autoridades discutem novas regras para limitar spreads bancários, mas a solução imediata depende dos próprios consumidores: planejar, priorizar e negociar. Sem isso, o endividamento recorde ameaça não só carteiras, mas o crescimento econômico como um todo.

Em tempos de juros na casa dos 400%, o cartão deixou de ser aliado e virou predador. Hora de mudar hábitos antes que o próximo relatório traga números ainda mais alarmantes.

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