O SUS iniciou um novo tratamento contra malária em crianças com tafenoquina pediátrica em dose única, voltado especialmente para regiões amazônicas.
(Imagem: TV Brasil/Reprodução)
O Sistema Único de Saúde começou a ofertar um novo tratamento contra malária em crianças, com a inclusão da versão pediátrica da tafenoquina, um medicamento em dose única voltado para casos causados pelo parasita Plasmodium vivax. A medida representa uma mudança relevante na rotina de tratamento infantil, especialmente em áreas remotas da Amazônia Legal, onde a adesão a esquemas longos costuma ser um desafio para as famílias. O início da distribuição ocorre após a incorporação formal da apresentação de 50 mg ao SUS por portaria publicada em 2025, depois do registro do produto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Com isso, o Brasil se torna o primeiro país a oferecer a tafenoquina nessa dosagem específica para o público pediátrico, em uma estratégia considerada inovadora no enfrentamento da malária infantil. A expectativa das autoridades sanitárias é reduzir recaídas, melhorar o controle da doença e ampliar a proteção de crianças em territórios com alta transmissão.
O que muda com o novo tratamento
Até agora, o tratamento de crianças com malária por Plasmodium vivax dependia de esquemas com múltiplas doses diárias ao longo de vários dias, o que exigia retorno constante às unidades de saúde e alto grau de organização das famílias. Com a chegada do novo tratamento contra malária em crianças, a tafenoquina pediátrica passa a ser administrada em dose única, com comprimidos de 50 mg indicados para pacientes com peso entre 10 kg e 35 kg, geralmente na faixa de 2 a 16 anos. Segundo o Ministério da Saúde, essa estratégia simplifica o protocolo clínico e facilita a adesão, já que muitos responsáveis têm dificuldade em manter as crianças em observação por uma semana ou em completar corretamente o ciclo tradicional de remédios. O medicamento age sobre as formas latentes do parasita no fígado, ajudando a evitar recaídas que são comuns na malária por Plasmodium vivax e que contribuem para manter a cadeia de transmissão ativa. A administração é feita sob supervisão da equipe de saúde, seguida por período de monitoramento, para garantir segurança e avaliar possíveis efeitos adversos.
O esquema em dose única da tafenoquina já vinha sendo adotado em adultos e adolescentes a partir de 16 anos desde a incorporação inicial ao SUS, em 2023, mas apenas agora recebe uma formulação específica para o público infantil. Estudos e experiências em campo mostram que a formulação em dose única tende a melhorar a efetividade geral do tratamento quando comparada a regimes tradicionais com primaquina por sete dias, especialmente em cenários de baixa adesão. No entanto, o uso da tafenoquina depende de avaliação da atividade da enzima G6PD, uma condição necessária para reduzir o risco de efeitos adversos graves, o que leva o Ministério da Saúde a ampliar, em paralelo, a oferta de testes específicos. Em crianças que não podem receber a tafenoquina, permanecem disponíveis esquemas alternativos com primaquina, ajustados ao peso e às condições clínicas, conforme orientações técnicas vigentes. A combinação de opções terapêuticas busca garantir cobertura segura a diferentes perfis de pacientes pediátricos.
Foco inicial na Amazônia e impacto nas populações vulneráveis
Nesta fase inicial, o novo tratamento contra malária em crianças está sendo priorizado para regiões com maior incidência da doença, especialmente a Amazônia Legal, onde se concentra a maioria dos casos em menores de 15 anos. De acordo com informações do Ministério da Saúde, serão distribuídos mais de 120 mil comprimidos da versão pediátrica, com parte expressiva do lote destinada aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, que reúnem metade das notificações de malária em crianças e adolescentes. Em muitas comunidades indígenas e ribeirinhas, o deslocamento até uma unidade de saúde pode levar horas ou dias, o que torna difícil completar tratamentos longos, baseados em vários comprimidos diários. A possibilidade de administrar uma dose única, seguida de monitoramento de curto prazo, é vista como uma forma de adaptar a política pública às condições reais de vida dessas populações. Profissionais em campo relatam que, para povos de recente contato e com forte mobilidade territorial, manter a criança uma semana em observação é pouco viável, o que aumenta a importância da nova abordagem terapêutica.
Além de reduzir a carga de comprimidos, a introdução do novo tratamento contra malária em crianças dialoga com uma estratégia mais ampla de enfrentamento da doença, que inclui vigilância ativa, diagnóstico rápido e ações de controle de vetores. O Ministério da Saúde vem reforçando a capacitação de profissionais para manejo tanto da tafenoquina quanto de outras combinações terapêuticas, como o artesunato com mefloquina (ASMQ), já em uso para malária por Plasmodium falciparum, principalmente em áreas indígenas. Essas medidas se somam a programas específicos voltados ao combate da malária entre povos indígenas, reconhecidos como um dos grupos mais atingidos e com maior vulnerabilidade em termos de acesso a serviços de saúde. A expectativa é de que, com tratamentos mais curtos e melhor adesão, haja redução progressiva de internações, complicações graves e óbitos associados à doença na infância. Essa mudança tende a aliviar também a pressão sobre as estruturas locais de saúde, que frequentemente operam em condições de recursos limitados.
Desafios, segurança e próximos passos
Mesmo com o avanço representado pelo novo tratamento contra malária em crianças, autoridades e especialistas destacam que alguns desafios permanecem, especialmente no que diz respeito à testagem de G6PD e à logística de distribuição em áreas de difícil acesso. Notas técnicas recentes do Ministério da Saúde orientam os serviços sobre a ampliação da testagem dessa enzima e sobre o uso adequado da tafenoquina, reforçando a importância de seguir protocolos para reduzir riscos e garantir a segurança dos pacientes. A estratégia também exige treinamento contínuo das equipes, para avaliação clínica, prescrição correta e acompanhamento das crianças após a dose única. Em paralelo, continuam em vigor os esquemas com combinações de derivados de artemisinina e primaquina, que seguem como base do tratamento para outros tipos de malária e para pacientes que não podem receber a nova formulação. A convivência entre diferentes terapias aumenta a complexidade do manejo, mas permite personalizar o cuidado conforme a realidade de cada paciente e de cada território.
Do ponto de vista epidemiológico, o novo tratamento contra malária em crianças pode contribuir para diminuir o número de recaídas e, consequentemente, o volume de casos ativos em áreas endêmicas, o que impacta diretamente a transmissão. Ao reduzir o tempo de tratamento e facilitar o cumprimento da terapia, aumenta-se a chance de cura radical, essencial no caso da malária por Plasmodium vivax, conhecida pela capacidade de permanecer latente no organismo. Especialistas avaliam que, mantida a oferta regular de medicamentos, diagnóstico oportuno e ações de prevenção, o país pode avançar em metas de controle e, em algumas regiões, caminhar em direção à eliminação da doença como problema de saúde pública. Ao mesmo tempo, pesquisas continuam em andamento, no Brasil e no mundo, em busca de novos fármacos e esquemas ainda mais eficazes, inclusive contra cepas resistentes e outras espécies de parasita. A combinação entre inovação terapêutica, expansão de acesso e fortalecimento da atenção primária será decisiva para determinar o impacto real dessa mudança na vida das crianças atingidas pela malária.