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Samba

Sociólogo Rodrigo Reduzino destaca samba-enredo como enunciado político nas escolas de samba durante ditadura

08 fev 2026 - 12h49 Joice Gomes   atualizado às 12h51
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Sociólogo Rodrigo Reduzino destaca samba-enredo como enunciado político nas escolas de samba durante ditadura O samba-enredo foi arma de luta pela democracia, segundo sociólogo Rodrigo Reduzino. (Imagem: Gilberto Costa/Agência Brasil)

O sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino afirma que o samba-enredo representa um grande enunciado político nas escolas de samba. Em entrevista à Agência Brasil, ele discute como essas composições musicais foram espaço de resistência durante a ditadura militar no Brasil.

A pesquisa de doutorado de Reduzino, intitulada Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia, analisa os samba-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro na década de 1980. Esse período abrange o fim da ditadura (1964-1985), a campanha Diretas Já e a eleição de Fernando Collor em 1989.

O trabalho acadêmico inspirou o documentário Enredos da Liberdade, disponível em cinco episódios no Globoplay. A produção explora os bastidores dos samba-enredo que desafiaram o regime nos anos 80.

Resistência nas escolas de samba

Durante os anos de chumbo, carnavalescos e compositores enfrentaram vigilância, censura e prisões. Reduzino enfatiza que o samba-enredo não era apenas uma música de desfile, mas resultado de meses de criação comunitária.

Ele critica o apagamento da intelectualidade negra na história cultural brasileira. O samba-enredo, como expressão de cultura negra, provocava debates sobre racismo e democracia.

Escolas como Império Serrano e outras do Rio usaram os enredos para gritar por liberdade, mesmo sob risco de repressão. Isso ampliava o impacto político além da avenida.

  • Processo de criação do samba-enredo durava até um ano nas comunidades.
  • Críticas à tortura e clamores por liberdade ecoavam em plena ditadura.
  • Escolas de samba foram vigiadas pelo Dops por discutir relações raciais.

Repressão e racismo estrutural

A repressão contra escolas de samba somava violência extra contra populações negras e periféricas. Reduzino cita o Código de Vadiagem, usado para prender quem portava instrumentos musicais sem carteira de trabalho.

O samba, manifestação cultural negra, foi historicamente marginalizado. Durante a ditadura, bicheiros se tornaram mecenas das escolas, mas circulavam também em gabinetes de generais.

O mito da democracia racial, reforçado em alguns sambas, nega realidades como o alto índice de mortes violentas de jovens negros. Reduzino aponta fichamentos de intelectuais como Lélia Gonzalez e Clóvis Moura pelo Dops.

  • 80% dos jovens mortos a bala no Brasil são negros.
  • Maioria das vítimas de violência obstétrica em hospitais públicos é negra.
  • Escolas de samba criticavam o mito da democracia racial apesar da censura.

Enredos e historiografia oficial

Críticas acusam enredos passados de seguirem a historiografia oficial, mas Reduzino rebate o estigma. Dos 140 enredos dos anos 1970, apenas quatro foram ufanistas, de três escolas específicas.

O samba-enredo desafiava a narrativa oficial, produzida por elites acadêmicas. Atribuir adesão à ditadura às escolas seria simplificação racista.

Hoje, Reduzino atua na Secretaria de Educação do Rio e no Departamento Cultural da Mangueira, conectando pesquisa acadêmica à prática carnavalesca.

  • Documentário Enredos da Liberdade tem direção de Luis Carlos de Alencar e pesquisa de Reduzino.
  • Série inclui depoimentos de 55 nomes do carnaval carioca e 31 especialistas.
  • Produção destaca avanço dos debates sobre luta negra nos anos 80.

Impactos atuais do samba-enredo

O legado dos samba-enredo dos anos 1980 inspira reflexões sobre carnaval como trincheira política. Eles mostram como a cultura popular resiste a regimes opressores.

Em 2026, com o Carnaval se aproximando, o trabalho de Reduzino ganha relevância ao lembrar que o desfile vai além da festa: constrói memória coletiva e luta por direitos.

Assistir ao documentário permite entender como o samba-enredo ajudou na redemocratização. Escolas continuam a desfilar temas sociais, mantendo viva a tradição de resistência.

A entrevista reforça a importância de valorizar vozes periféricas na história brasileira. O samba-enredo prova que a arte pode ser ferramenta de transformação social duradoura.

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