Cuba registra colapso parcial do sistema elétrico afetando 3,4 milhões em Holguín, Granma, Santiago de Cuba e Guantánamo.
(Imagem: Reprodução/Norlys Perez)
O sistema elétrico de Cuba sofreu um novo colapso parcial nesta quarta-feira (4), deixando cerca de 3,4 milhões de pessoas sem energia em quatro províncias do leste do país.
A interrupção atingiu Holguín, Granma, Santiago de Cuba e Guantánamo, regiões populosas que dependem fortemente da rede nacional gerenciada pela estatal Unión Eléctrica.
De acordo com a empresa, o problema começou com o desligamento repentino de uma linha de alta tensão de 220 kV em Holguín, por volta das 20h54, o que provocou o fechamento da central termoelétrica de Felton, a maior do leste cubano.
Falha técnica expõe fragilidades
O incidente levou ao desligamento não só de Felton, mas também de outra central e de uma subestação na mesma província, isolando o sistema elétrico oriental do restante da rede nacional.
A Unión Eléctrica informou que equipes técnicas já trabalham para investigar as causas e restaurar o serviço, mas não divulgou prazos para a normalização total.
Este é o segundo apagão parcial em menos de cinco meses, destacando os problemas crônicos de manutenção e subfinanciamento que assolam o setor desde a Revolução de 1959.
Crise energética se arrasta desde 2024
Desde meados de 2024, Cuba vive uma grave crise energética, com apagões diários que chegam a 20 horas em várias cidades, afetando a vida cotidiana e a economia.
Em 31 de janeiro, o país registrou seu maior apagão desde 2022, com 63% da população sem luz simultaneamente, segundo relatórios oficiais da Unión Eléctrica.
Sete das 16 termoelétricas, responsáveis por 40% da geração, estão paralisadas por avarias ou falta de combustível, incluindo duas das três maiores unidades do país.
- Central de Felton: Maior do leste, instável e com histórico de falhas.
- Termoelétricas como Guiteras e Céspedes: Em manutenção adiada por falta de recursos.
- Produção de gás: Promessas de aumento em 2026, mas sem garantias concretas.
Especialistas independentes estimam que entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões seriam necessários para modernizar o sistema elétrico, valor inalcançável para o governo cubano em meio à contração econômica de mais de 15% desde 2020.
Embargo e falta de combustível agravam quadro
A situação piorou com a suspensão de envios de petróleo da Venezuela após o sequestro de Nicolás Maduro em janeiro, e novas sanções impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Trump emitiu ordem executiva permitindo tarifas a países que vendam combustível a Havana, e alertou para um possível colapso humanitário, ecoado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres.
No domingo, o presidente americano mencionou um diálogo em curso com Havana, prevendo um "acordo", mas sem detalhes públicos até o momento.
Os apagões prolongados têm impactos profundos: prejuízos à indústria, agricultura e turismo, além de catalisar protestos populares nos últimos anos, como os de 2021 e 2024.
Famílias recorrem a geradores improvisados, velas e fogões a lenha, enquanto hospitais e serviços essenciais enfrentam sobrecarga com geradores diesel escassos.
Perspectivas incertas para 2026
O ministro cubano de Energia e Minas, Vicente de la O Levy, prometeu mais gás e reparos em usinas como Felton e Guiteras para este ano, mas admitiu que 2026 será "difícil".
Investimentos dependem de "países amigos", mas com Venezuela instável e México reduzindo envios para 3 mil barris diários, a dependência externa persiste.
Analistas alertam que, sem reformas profundas no modelo estatal e atração de investimentos privados, o sistema elétrico cubano pode enfrentar colapsos mais frequentes.
A crise energética não é só técnica, mas reflete desafios econômicos maiores: inflação galopante, escassez de alimentos e migração em massa.
Enquanto o governo culpa o embargo americano, especialistas apontam para décadas de subinvestimento e ineficiência gerencial como raízes do problema.
Para os cubanos do leste afetados pelo último apagão, a escuridão é rotina: crianças estudam à luz de celular, negócios param e a esperança por luz estável parece distante.
O episódio reforça a urgência de soluções sustentáveis, como diversificação de fontes renováveis, solares e eólicas, que representam apenas 5% da matriz atual e parcerias internacionais sem amarras ideológicas.
Até lá, o sistema elétrico segue no limite, e cada falha como a de Holguín serve de lembrete da fragilidade de uma infraestrutura envelhecida.