Transplante facial na Espanha usa doadora de morte assistida pela primeira vez no mundo.
(Imagem: Hospital Vall d'Hebron)
O Hospital Vall d'Hebron, em Barcelona, anunciou um feito histórico na medicina: o primeiro transplante facial do mundo realizado com tecido de uma doadora que solicitou morte assistida. A cirurgia, que envolveu cerca de 100 profissionais de diversas áreas, incluindo psiquiatras e imunologistas, foi um sucesso e marca um avanço inédito na área de transplantes compostos.
A receptora, identificada apenas como Carme, sofreu uma necrose grave no tecido facial após uma infecção bacteriana provocada por picada de inseto. Essa condição comprometeu sua capacidade de falar, comer e até enxergar, transformando sua rotina em um desafio diário. Hoje, meses após o procedimento, ela relata estar se recuperando bem e se sentindo mais confiante ao se olhar no espelho.
"Quando me olho no espelho em casa, penso que estou começando a parecer mais comigo mesma", declarou Carme em coletiva de imprensa. A doadora, por sua vez, demonstrou um gesto de generosidade extrema ao decidir doar seu rosto como um de seus últimos desejos, dedicando-se a um desconhecido mesmo em meio ao processo de eutanásia.
Detalhes do procedimento cirúrgico
O transplante facial focou na parte central do rosto, exigindo precisão milimétrica na conexão de vasos sanguíneos e nervos. Graças ao planejamento antecipado, possível porque a doadora já havia autorizado a morte assistida, a equipe usou modelagem 3D para criar guias personalizadas, otimizando o resultado funcional e estético.
Joan-Pere Barret, chefe de Cirurgia Plástica e Queimados do Vall d'Hebron, destacou que esse planejamento detalhado foi excepcional. A operação ocorreu no outono europeu de 2025, mas só foi divulgada recentemente por respeito à privacidade das envolvidas. Critérios rigorosos foram aplicados: doadora e receptora tinham o mesmo sexo, grupo sanguíneo e medidas cranianas semelhantes.
- Participação de 100 profissionais multidisciplinares;
- Modelagem 3D para precisão cirúrgica;
- Avaliação psicológica pré e pós-operatória;
- Transplante de tecido composto central do rosto.
A coordenadora de transplantes, Elisabeth Navas, ficou impressionada com a maturidade da doadora. "Alguém que decidiu encerrar sua vida dedica um de seus últimos desejos a um estranho e lhe dá uma segunda chance dessa magnitude", afirmou ela.
Espanha consolida liderança mundial em transplantes
A Espanha mantém há mais de três décadas o posto de líder global em doações e transplantes de órgãos. Em 2025, o país registrou 6.335 transplantes e 2.547 doadores falecidos, alcançando uma taxa de 51,9 doadores por milhão de habitantes, a mais alta do mundo. Esses números reforçam o modelo espanhol, baseado em coordenação eficiente e conscientização pública.
O Vall d'Hebron é pioneiro nessa área: realizou metade dos seis transplantes faciais já feitos no país e o primeiro transplante facial completo do mundo, em 2010. No total, cerca de 54 procedimentos desse tipo ocorreram globalmente, com a Espanha despontando como referência. Em 2024, foram 6.300 transplantes no país, liderados pelos renais.
Esse sistema é um orgulho nacional, impulsionado pela solidariedade da população e pelo trabalho exemplar dos profissionais de saúde. A Organização Nacional de Transplantes (ONT) divulga dados que mostram o país superando EUA e União Europeia em taxas por habitante.
Eutanásia e doação: um debate ético atual
A legalização da eutanásia na Espanha, em 2021, abriu caminhos para casos como esse. Em 2024, 426 pessoas receberam assistência para morrer, e dados indicam que muitos optam por doar órgãos, ampliando o impacto positivo de sua decisão. Na Catalunha, região do Vall d'Hebron, os pedidos são mais frequentes.
O caso levanta questões éticas profundas: como conciliar o fim de uma vida com o início de outra? Especialistas enfatizam a importância da avaliação psicológica para receptores, ajudando-os a lidar com a nova identidade facial. Carme, apoiada por psiquiatras, adaptou-se bem e agora planeja retomar atividades normais.
Esse transplante facial não é só técnico, mas humano. Ele ilustra como avanços médicos, legislação progressista e altruísmo podem se unir para salvar vidas. A Espanha, mais uma vez, dita o ritmo global em transplantes, provando que generosidade transcende fronteiras.
A recuperação de Carme prossegue favoravelmente, com expectativa de resultados plenos em um ano. Histórias como essa inspiram debates sobre doação de órgãos e direitos terminais, reforçando a necessidade de sistemas públicos robustos.
Enquanto o mundo acompanha esse marco, o Vall d'Hebron continua inovando. O procedimento reforça que, em medicina, cada detalhe conta, da picada de inseto à modelagem 3D, e que o legado de uma pessoa pode iluminar outra.