Rãs fingem de mortas para fugir de macho feios.
(Imagem: Imagem gerada por IA)
Em meio ao coaxar intenso e à disputa por parceiras durante a época reprodutiva, um comportamento inusitado tem despertado o interesse de biólogos: fêmeas de determinadas espécies de rãs fingem estar mortas para evitar o acasalamento.
A estratégia, conhecida como thanatosis ou imobilidade tônica, é mais comum no reino animal como mecanismo de defesa contra predadores, mas, nesse caso, cumpre uma função diferente — e estratégica.
O fenômeno foi observado quando fêmeas são assediadas por machos considerados inadequados do ponto de vista reprodutivo.
Durante o período de reprodução, muitas espécies de rãs enfrentam um cenário competitivo. Machos tentam acasalar de forma insistente, muitas vezes agarrando as fêmeas à força.
Esse comportamento pode representar riscos físicos, gasto excessivo de energia e até morte por afogamento, especialmente quando vários machos tentam acasalar com a mesma fêmea.
Diante desse cenário, a thanatosis surge como uma saída extrema — e eficiente.
Como funciona a “encenação” da morte
Ao se deparar com um macho menor, mais fraco ou geneticamente menos vantajoso, a fêmea adota um comportamento radical: vira de barriga para cima, permanece completamente imóvel, mantém os olhos abertos e fixa o olhar, simulando estar morta.
A encenação é convincente. O corpo não reage, não há tentativa de fuga e nenhum sinal de receptividade ao acasalamento.
Por que os machos desistem
A reação dos machos costuma ser imediata: eles perdem o interesse e se afastam. Do ponto de vista instintivo, acasalar com uma fêmea aparentemente morta ou doente não faz sentido. Isso pode representar risco de contaminação, falha reprodutiva ou simplesmente desperdício de energia.
Assim, a imobilidade tônica funciona como um “sinal negativo” claro, interrompendo a tentativa de acasalamento sem confronto direto.
Para os pesquisadores, o comportamento revela uma forma sofisticada de seleção sexual. Ao evitar machos indesejáveis, a fêmea preserva energia e aumenta as chances de se reproduzir com parceiros mais fortes, maiores ou geneticamente mais vantajosos.
O mais impressionante é que, quando um macho considerado adequado aparece, a fêmea interrompe imediatamente o estado de imobilidade e aceita o acasalamento, mostrando que o comportamento é totalmente reversível e altamente seletivo.
Muito além de uma curiosidade
Embora possa parecer apenas uma curiosidade da natureza, o comportamento reforça como a evolução molda estratégias complexas mesmo em animais considerados simples.
A thanatosis reprodutiva demonstra que fêmeas não são agentes passivos no processo de reprodução e desenvolvem mecanismos ativos para controlar com quem vão gerar descendentes.
Em um mundo natural marcado pela disputa constante, fingir de morta pode ser, paradoxalmente, uma das estratégias mais eficazes para garantir a continuidade da vida.