Pesquisa do IBGE mostra que apenas 55% dos jovens de 13-17 anos confirmam vacina HPV.
(Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Quase metade dos adolescentes brasileiros está desprotegida contra o papilomavírus humano (HPV), principal vilão dos cânceres de colo de útero, ânus, pênis e garganta. É o que revela a mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), publicada pelo IBGE em março de 2026.
Apenas 54,9% dos estudantes entre 13 e 17 anos têm certeza de terem recebido a vacina. Isso deixa 4,2 milhões na incerteza e 1,3 milhão confirmadamente vulneráveis. A queda de 8 pontos percentuais desde 2019 acende sinal de alerta para o Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Queda acentuada entre meninas preocupa mais
Entre as meninas, o recuo foi dramático: de 76,1% em 2019 para 59,5% agora, perda de 16,6 pontos. Os meninos, com 50,3% de certeza vacinal, também mostram fragilidade. Dos entrevistados, 30,4% já iniciaram vida sexual, meninos aos 13,3 anos em média, meninas aos 14,3, quando a vacina perde eficácia.
A pesquisa, realizada em 2024 com alunos do 9º ano do ensino fundamental e todas as turmas do médio, ouviu milhares de estudantes em escolas públicas e privadas. Os dados expõem desigualdades: maior resistência parental em colégios particulares (15,8%) e mais faltas por acesso em públicas (11%).
Desinformação lidera motivos da recusa
Metade dos não vacinados (50%) simplesmente ignora a importância da dose. Outros 7,3% enfrentam recusa familiar, 7,2% duvidam da eficácia e 7% citam barreiras logísticas. Isabela Balallai, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), destaca: "Não são só fake news. É falta de informação básica e baixa percepção de risco".
Ela defende reforço escolar como solução. "Escolas resolvem tudo: educam, facilitam acesso e convencem famílias", afirma. O Ministério da Educação (MEC) já integra vacinação às rotinas desde 2012, mas a adesão caiu pós-pandemia.
HPV: ameaça silenciosa que mata milhares
O HPV infecta 54,6% da população genital brasileira, segundo estudos nacionais. Liga-se a 99% dos 19.300 casos anuais de câncer de colo de útero projetados pelo INCA para 2026-2028 – segundo mais comum entre mulheres no Norte/Nordeste. Em 2025, foram 7.249 mortes, 20 por dia.
Além do colo do útero, afeta boca (70% dos tumores por HPV 16/18), ânus (85%), pênis e garganta. A vacina quadrivalente do SUS combate os sorotipos 6, 11, 16 e 18, responsáveis por 70% das verrugas genitais e cânceres graves.
Histórico e sucessos da vacinação no Brasil
Iniciada em 2014 para meninas de 9-14 anos, estendida a meninos em 2017. Em 2024, adotou-se dose única, recomendação da OMS por boa proteção inicial e maior adesão. Cobertura em 2025: 86% em meninas e 74,4% em meninos da faixa ideal.
Resultados animam: Fiocruz registra queda de 58% nos cânceres cervicais e 67% em lesões pré-malignas entre vacinadas jovens. Para resgatar os faltosos, campanha até junho de 2026 atinge 15-19 anos. Já foram 217 mil doses em adolescentes mais velhos.
Estratégias para reverter o quadro
O SUS mantém posto fixo com app Conecte SUS para consulta de caderneta. Grupos de risco – HIV, transplantados, vítimas de violência sexual – recebem até três doses. Eder Gatti, do PNI, alerta: "Resgatar esses jovens corta a cadeia de transmissão".
Campanhas extramuros levam doses a escolas e comunidades. No Rio de Janeiro, mães como Joana Darc Souza vacinaram filhas de 9 e 12 anos por orientação pediátrica e escolar. "É questão de vida ou morte. Meu dever é proteger", conta.
- Dose única: Suficiente para 9-14 anos; reforço para vulneráveis.
- Meta global: OMS quer zerar colo de útero até 2030 via vacina + rastreio (DNA-HPV).
- INCA 2026: 781 mil cânceres/ano; incidência 10% maior que antes.
- Regiões críticas: Norte tem taxa quase dupla do Sudeste.
Desafios e o caminho à frente
Hesitação vacinal persiste por mitos, infertilidade, efeitos colaterais raros e falhas de comunicação. Estudos locais, como em Maringá (PR), mostram medo parental como barreira chave entre 11-14 anos. Solução passa por pediatras, escolas e mídia confiável.
O INCA impulsiona rastreio moderno, trocando Papanicolau por teste de DNA-HPV mais sensível. Equidade é essencial: disparidades regionais elevam mortes evitáveis. Com 45% vulneráveis, o Brasil precisa acelerar para não desperdiçar avanços de uma década.
Educar é vacinar. Cada dose evita tumores futuros e protege parceiros. O SUS oferece tudo de graça – cabe à sociedade aderir antes que o HPV cobre seu preço alto em vidas.