Filme O Agente Secreto.
(Imagem: Divulgação)
O cinema brasileiro voltou a ocupar o centro das atenções internacionais com força total. “O Agente Secreto”, novo longa de Kleber Mendonça Filho, alcançou quatro indicações ao Oscar 2026, igualando um feito histórico que até então pertencia apenas a “Cidade de Deus”, em 2004.
O reconhecimento não é apenas numérico: ele simboliza um momento de maturidade artística, visibilidade global e afirmação criativa do Brasil em uma das maiores vitrines culturais do mundo.
A produção concorre nas categorias de Melhor Direção de Elenco, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator — para Wagner Moura — e Melhor Filme, um feito raro para obras faladas em língua não inglesa.
A cerimônia da 98ª edição do Oscar acontece em 15 de março, em Los Angeles, e novamente será apresentada pelo comediante Conan O’Brien, repetindo o formato adotado no ano anterior.
Um jogo de tensão em meio à folia
Ambientado em 1977, “O Agente Secreto” acompanha Marcelo, personagem vivido por Wagner Moura, um professor que deixa São Paulo às pressas após receber ameaças e chega ao Recife com o objetivo de reencontrar o filho.
O que poderia ser apenas um drama familiar se transforma em um thriller político de atmosfera sufocante, marcado pela vigilância constante e pelo medo silencioso imposto pela ditadura militar.
Kleber Mendonça Filho utiliza o carnaval e a paisagem urbana pernambucana de forma subversiva. A festa, tradicionalmente associada à liberdade, torna-se pano de fundo para um clima de paranoia, onde cada esquina parece esconder um observador.
O diretor constrói um jogo de gato e rato que mistura lendas locais, repressão política e afetos interrompidos, resultando em um filme que transita com naturalidade entre o suspense pop e o drama profundamente humano.
O desempenho de Wagner Moura tem sido amplamente elogiado e é considerado um dos pontos centrais da força do filme. Sua atuação contida, marcada por olhares e silêncios, reforça a complexidade de um homem dividido entre a sobrevivência e a tentativa desesperada de reconstruir laços familiares. A indicação ao Oscar de Melhor Ator consolida ainda mais a trajetória internacional do ator.
Além do destaque para “O Agente Secreto”, o Brasil também marca presença em outra categoria técnica importante. Adolpho Veloso concorre a Melhor Fotografia por seu trabalho em “Sonhos de Trem”, sendo apontado como um dos favoritos.
O reconhecimento evidencia não apenas talentos individuais, mas a solidez de toda uma geração de profissionais brasileiros.
No panorama geral das indicações, filmes como “Pecadores”, líder com 16 nomeações, e “Uma batalha após a outra”, com 13, dominam a disputa. Ainda assim, a presença brasileira se destaca pela relevância simbólica.
Após a vitória histórica de “Ainda Estou Aqui” como Melhor Filme Internacional no ano anterior — a primeira estatueta do Brasil —, o país demonstra que aquele triunfo não foi um ponto fora da curva, mas o início de uma nova fase.
Mais do que prêmios, “O Agente Secreto” representa a capacidade do cinema nacional de revisitar seu passado, dialogar com o presente e se projetar para o futuro, sem perder identidade nem potência narrativa.