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Expansão dos rebanhos

Como o Nordeste se tornou o novo motor da pecuária nacional

O Nordeste desponta como força na pecuária brasileira, respondendo por mais de 30% do crescimento do rebanho nacional nos últimos 20 anos. Veja os impactos.

28 jul 2026 - 07h57 Joice Gomes   atualizado às 08h02
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Como o Nordeste se tornou o novo motor da pecuária nacional Gado pastando em área de transição para o Cerrado no Matopiba, impulsionando a pecuária nordestina. (Imagem: Governo do Maranhão)

O Nordeste brasileiro está redesenhando o mapa da pecuária nacional. Longe de ser apenas uma região marcada por desafios climáticos históricos, o território nordestino respondeu por impressionantes 32,3% de todo o crescimento líquido do rebanho bovino do Brasil nas últimas duas décadas, consolidando um avanço estrutural que desafia velhos clichês econômicos.

Esse salto levou a participação da região de 14,05% em 2005 para 15,7% em 2025, conforme revelam os dados do recém-lançado Beef Report 2026, elaborado pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Na prática, o avanço reflete uma combinação poderosa de fatores: atração de investimentos, oferta de crédito e a expansão das fronteiras agrícolas sobre o Cerrado.

Mas o impacto vai além dos números absolutos e mexe diretamente com a balança comercial e a infraestrutura regional. Com novos mercados internacionais se abrindo e obras logísticas estratégicas avançando, o agronegócio do Nordeste entra em uma fase de maturidade produtiva inédita.

O que está por trás do crescimento no campo

A expansão dos rebanhos não ocorreu de forma homogênea, concentrando-se principalmente em áreas de transição para o Cerrado, longe do núcleo mais árido do Semiárido. O grande motor dessa transformação atende pelo nome de Matopiba, região que abrange o Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

O avanço vigoroso da produção de grãos nessa fronteira agrícola ampliou drasticamente a oferta de milho e farelo de soja, barateando os insumos para a nutrição animal. Paralelamente, a adoção de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e a disponibilidade de terras historicamente mais baratas atraíram produtores de outras regiões do país, elevando o patamar tecnológico local.

Bahia e Maranhão lideram essa arrancada com folga. Juntos, os dois estados concentram cerca de 66% de todo o rebanho do Nordeste e foram responsáveis por impressionantes 80,6% do crescimento líquido regional no período de 20 anos analisado. A Bahia ostenta hoje o sétimo maior rebanho do país, com mais de 12 milhões de cabeças, enquanto o Maranhão ocupa o décimo posto, com 8,2 milhões de cabeças.

O que muda na prática com a modernização

Nos estados historicamente mais castigados pela seca, como Pernambuco, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte, o crescimento recente tem um forte componente de resiliência: a recomposição assistida dos plantéis após ciclos severos de estiagem. O Rio Grande do Norte, por exemplo, registrou a maior alta proporcional do rebanho na região, com expansão de 49,8%, seguido de perto pelo Maranhão (46,1%) e Sergipe (36,3%).

Essa nova pecuária demanda, contudo, um ecossistema econômico de suporte. A expansão impõe desafios ambientais urgentes, que exigem práticas de manejo sustentável e recuperação de pastagens degradadas para evitar o desmatamento ilegal. Ao mesmo tempo, atrai a atenção de investidores financeiros atentos a essa riqueza do interior.

Um exemplo dessa engrenagem financeira é o avanço de assessorias locais, como a pernambucana Pequod Investimentos, recentemente premiada como a melhor assessoria do Nordeste pela XP no Brazil Advisor Awards 2026. Com R$ 4,5 bilhões sob custódia, a empresa planeja contratar 150 novos especialistas para acompanhar a demanda por crédito e estruturação financeira no Nordeste, um reflexo claro de uma economia regional em plena sofisticação.

Como isso afeta o comércio internacional e a logística

Para que esse rebanho em expansão se transforme em riqueza exportável, a logística e a diplomacia sanitária precisam caminhar juntas. Recentemente, novos mercados internacionais abriram as portas para os produtos pecuários brasileiros. A China autorizou a importação de cálculos biliares bovinos, insumo de alto valor para a medicina tradicional asiática, enquanto o Paraguai e o arquipélago de Palau também liberaram novas compras de proteínas animais do Brasil.

E é aqui que está o ponto central: para escoar essa produção crescente rumo aos portos de forma competitiva, obras de infraestrutura tornam-se vitais. A assinatura de um contrato de R$ 312,8 milhões pela construtora portuguesa ACA (Alberto Couto Alves) para retomar obras da Ferrovia Transnordestina em Pernambuco sinaliza que o gargalo de transporte começa a ser atacado. A empresa agora soma R$ 1,2 bilhão em contratos no Brasil.

O que pode acontecer a partir disso é uma aceleração na integração das cadeias de suprimento do Nordeste. Com uma malha ferroviária eficiente e um rebanho moderno alimentado pelos grãos do Matopiba, a pecuária nordestina deixa de ser apenas uma atividade de subsistência ou consumo local para consolidar-se como um player robusto no comércio global de proteína animal.

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