Lideranças de organizações de mulheres negras durante o lançamento do manifesto político em Brasília.
(Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O cenário para as Eleições 2026 começa a ser desenhado com uma cobrança histórica por representatividade real e equilíbrio de forças nos espaços de decisão. Em Brasília, ativistas e lideranças lançaram o Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil, propondo uma reformulação profunda na estrutura de poder do país.
Coordenado pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), o documento apresenta o "Pacto do Bem Viver". O projeto visa colocar a dignidade, a justiça e a solidariedade no centro das decisões e da formulação de políticas públicas efetivas.
Na prática, a iniciativa quer ir além da lógica de que mulheres negras devem ser apenas beneficiárias de programas assistenciais. O objetivo é consolidar essa parcela da população, que representa mais de um quarto dos brasileiros, como gestoras e tomadoras de decisão.
O que muda na prática para as candidaturas em 2026
Atualmente, existe um abismo visível entre a demografia das ruas e a composição dos parlamentos. Embora representem mais de 28% da população brasileira segundo o IBGE, as mulheres negras enfrentam barreiras financeiras e partidárias severas para viabilizar suas campanhas.
Durante o evento, as ativistas criticaram abertamente a distribuição desigual do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral. Sem recursos proporcionais, candidatas negras acabam sub-representadas na propaganda e na estrutura de campanha.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as Eleições de 2026 ilustram esse cenário: do total de candidaturas, as mulheres pretas somam apenas 6% (1.234) e as pardas representam 12,2% (2.485). A campanha nacional com a hashtag #EuVotoEmNegra tenta justamente reverter esse descompasso histórico.
O que está por trás do abismo na representação pública
O problema, contudo, ultrapassa as fronteiras do Legislativo e do Executivo. A sub-representação é crônica também em outras esferas de autoridade, como o próprio sistema de Justiça brasileiro.
A promotora de Justiça Nádia Estela Ferreira Mateus, do Ministério Público de Minas Gerais, revelou dados alarmantes durante o lançamento. Entre os 13 mil membros do Ministério Público em todo o país, apenas 0,7% são procuradoras ou promotoras pretas.
Para as lideranças, reverter essa disparidade é uma premissa básica para a sobrevivência da própria democracia. Sem diversidade nos postos de comando, as decisões sobre os direitos mais fundamentais continuam sendo tomadas sob uma ótica restrita e de privilégios.
Como a desinformação e a violência afetam o debate
Outro ponto crítico abordado no manifesto é a chamada "guerra híbrida", impulsionada pelo que chamam de tecnoautoritarismo. Trata-se da manipulação de informações por algoritmos de grandes plataformas, que muitas vezes desidratam o debate sobre direitos sociais.
Janira Sodré, secretária-executiva da AMNB, alerta que discursos contrários ao bem-estar social têm sido vendidos digitalmente como "avanços". Ela exemplifica com narrativas que romantizam o fim do emprego formal e enfraquecem conquistas trabalhistas históricas.
Além da arena digital, a violência física nos territórios periféricos e o avanço de grupos armados impõem barreiras reais à participação política. A exigência das ativistas é clara: o Estado precisa se fazer presente por meio de serviços essenciais, segurança e cidadania direta.
O impacto das novas gerações no futuro da política
A força do manifesto reside também em sua capacidade de unir gerações, integrando vozes históricas do feminismo negro a jovens que enfrentam novas camadas de vulnerabilidade.
A participação de mulheres trans negras, como a engenheira ambiental Caiene Reinier Freitas, simboliza esse pacto intergeracional. Em um país onde a expectativa de vida dessa população é de apenas 35 anos, ocupar espaços acadêmicos e políticos torna-se um ato de sobrevivência.
O caminho até as urnas em 2026 promete ser disputado, mas o manifesto deixa um recado nítido aos partidos: a governabilidade futura dependerá, inevitavelmente, da inclusão real de quem sempre esteve na base da pirâmide social.