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Qua, 10 de Junho
Contaminação

Veneno no berço: 90% dos bebês Munduruku nascem contaminados por mercúrio

Nove em cada dez bebês Munduruku nascem contaminados por mercúrio. Níveis em gestantes chegam a ser 20 vezes superiores ao limite de segurança da OMS.

04 jun 2026 - 08h33 Joice Gomes   atualizado às 08h35
Veneno no berço: 90% dos bebês Munduruku nascem contaminados por mercúrio O pesquisador Paulo Basta, da Fiocruz, apresenta dados alarmantes sobre a saúde indígena durante a Rio Nature & Climate Week. (Imagem: gerado por IA)

Nove em cada dez bebês Munduruku já chegam ao mundo carregando no sangue um veneno silencioso e invisível: o mercúrio.

O dado alarmante surge de uma pesquisa preliminar da Fiocruz, que revela uma tragédia geracional no Médio Tapajós, no Pará. Mulheres grávidas da região apresentam níveis do metal pesado quatro vezes e meia superiores ao limite de segurança estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Enquanto o aceitável seria 2 microgramas por grama de cabelo, a média entre as gestantes monitoradas é de 9,1. Mas o abismo é ainda mais profundo: em casos extremos, o nível de contaminação chega a 39,9, o que significa estar 20 vezes acima do tolerável.

O impacto irreversível no neurodesenvolvimento

A contaminação não é apenas um número em um relatório; ela tem faces e nomes. Segundo o pesquisador Paulo Basta, da Fiocruz, o mercúrio atravessa a placenta e ataca diretamente o sistema nervoso central do feto. Na prática, isso muda mais do que parece, pois compromete o futuro de toda uma comunidade.

O mercúrio se transforma em uma neurotoxina que provoca lesões permanentes no tecido cerebral. "As pessoas vão ter que lidar com esse problema para sempre", alerta o pesquisador. O reflexo dessa crise já é visível nos postos de saúde: o distrito sanitário do Rio Tapajós tornou-se a unidade que mais solicita cadeiras de rodas ao Ministério da Saúde, evidenciando uma explosão de doenças neurológicas raras e anomalias congênitas sem diagnóstico definido.

Por que o alimento se tornou um veneno

Para o povo Munduruku, a tragédia é alimentada pela falta de escolha. A principal fonte de proteína das aldeias é o peixe, o mesmo que absorve o mercúrio despejado pelo garimpo ilegal de ouro que assola a Amazônia há décadas. Mas o impacto vai além da saúde física, atingindo o âmago da cultura indígena.

A liderança Alessandra Korap Munduruku relata a angústia das mães que, sem alternativas, perguntam se devem parar de amamentar ou se seus próprios úteros se tornaram lugares perigosos. "O coração dói porque não há como sair do território. Que progresso é esse que mata rios e expulsa os povos?", questiona Alessandra. O problema é agravado pela "lavagem" de ouro, onde garimpos ilegais usam permissões simplificadas para dar aparência de legalidade ao metal extraído sob o rastro da destruição.

O que pode acontecer a partir de agora

A falta de dados oficiais ainda é um obstáculo para políticas públicas eficazes. Até recentemente, o Brasil não possuía uma ficha de notificação específica para casos de contaminação por mercúrio, o que mascara a real dimensão do problema. E é aqui que está o ponto central: sem monitoramento estatal, o crime ambiental permanece invisível.

Embora existam 751 casos confirmados laboratorialmente, a maioria no Pará e em Roraima, entre os Yanomami, pesquisadores acreditam que este é apenas o topo do iceberg. A pressão agora recai sobre o fortalecimento do licenciamento ambiental e a fiscalização rigorosa da cadeia do ouro para evitar que o mercúrio continue circulando livremente.

Sem uma intervenção estrutural, o futuro de gerações inteiras na Amazônia continuará sendo hipotecado por um modelo de exploração que ignora a vida humana. O grito do povo Munduruku é um alerta urgente: a floresta está sendo silenciada, e seus guardiões estão sendo envenenados antes mesmo de dar os primeiros passos.

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