Mulheres no futebol relatam preconceito e desafios, mas reforçam que determinação.
(Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil)
Competir em um ambiente historicamente masculino exige hoje das mulheres no futebol muito mais do que talento: é preciso disposição para enfrentar preconceito, balançar estereótipos e construir, dia a dia, um lugar próprio dentro do esporte. No Mês da Mulher, jogadoras, narradoras, meninas em formação e ex-atletas convertidas em gestoras reforçam que a determinação acaba sendo a principal chave para vencer o machismo e firmar o futebol feminino como prática ampla e profissional no país.
Um cenário de barreiras e poucos lugares
Em 2022, a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apontava menos de 400 atletas profissionais registradas no futebol feminino, com apenas 17 árbitras listadas no quadro nacional, um número que reflete ainda um campo muito restrito para mulheres em posições de destaque dentro e fora de campo. Ainda que o cenário tenha avançado desde a regulamentação oficial do futebol feminino, após quase quatro décadas de proibição, a quantidade de profissionais mulheres continua pequena diante da dimensão do mercado de futebol brasileiro.
Para muitas atletas, a trajetória se inicia com dúvidas e resistência até dentro da própria família. Isadora Jardim, de 14 anos, meia-campista da categoria sub‑15 do Corinthians, lembra que, ao declarar que queria ser jogadora, ouviu conselhos como “futebol não é para mulher” e “mulher não joga futebol”. Em vez de recuar, ela recorreu a essas críticas para se fortalecer, muda‑se do Distrito Federal para São Paulo e divide o dia entre treinos pela manhã e estudos à tarde, além de já ter sido convocada para a Seleção Brasileira sub‑15.
Formiga e a construção de um ambiente seguro
A ex-volante e meia Formiga, única atleta brasileira a disputar sete Copas do Mundo de Futebol, hoje ocupa a Diretoria de Políticas de Futebol e de Promoção do Futebol Feminino do Ministério do Esporte. Para ela, a prioridade não é apenas ampliar o número de atletas, mas criar um ambiente seguro para meninas e mulheres que quiserem atuar no futebol em qualquer função: jogadora, treinadora, árbitra, dirigente ou profissional de comunicação.
Formiga insiste que, mesmo com muitas meninas e talentos surgindo, o avanço será limitado enquanto a estrutura de base não for fortalecida em todo o país. Segundo sua avaliação, estados como São Paulo concentram grande parte do peso do futebol feminino, mas é preciso que outros estados também consolidem times femininos e centros de formação, com apoio de clubes e de políticas públicas. “Enquanto não tivermos estrutura, vamos avançar pouco”, alerta, chamando as entidades para que encarem o futebol feminino como parte central do planejamento, e não como apêndice.
Meninas que sonham com o gramado
Para jovens como Isadora Jardim, a conquista de um espaço no time profissional de um clube de grande porte é, ao mesmo tempo, um sonho realizado e um exercício de resistência diária. Entre a rotina escolar, a pressão de resultados e a exposição em redes sociais, elas negociam fragilidades emocionais com a exigência técnica do alto‑rendimento. Ainda assim, a mensagem que repetem é a de que não se deve abrir mão do sonho por conta de preconceitos ou comentários desmontadores.
Isadora, ao falar para meninas que começam no futebol, reforça que o caminho é seguir firme treinando, mesmo quando as pessoas ao redor subestimam a capacidade feminina no esporte. Para ela, a presença de mais meninas em campo acaba sendo um sinal de normalidade: quanto maior o número de atletas, menor o espaço para discursos de que “futebol não é coisa de mulher”. A determinação individual, nesse cenário, se soma à necessidade de políticas que ampliem vagas e oportunidades.
Narração esportiva: o machismo nas cabines
Outro front em que o machismo se faz sentir é na narração esportiva. A locutora Luciana Zogaib, que integra as equipes de esportes da TV Brasil e da Rádio Nacional, relembra que o rádio esportivo tem mais de 100 anos de história e, por décadas, funcionou quase como um espaço exclusivamente masculino. A resistência a narradoras, segundo ela, vem de um conjunto de crenças culturais enraizadas sobre o que seria “apropriado” para homens e mulheres no futebol.
Para Zogaib, a presença feminina nas cabines não é apenas uma questão de representação simbólica, mas de abertura real de mercado. A inclusão de mais locutoras passa a sinalizar para emissoras particulares, clubes e outros parceiros que esse segmento pode ser ocupado por profissionais mulheres, o que, por tabela, amplia oportunidades de emprego. Aos poucos, a narradora percebe mudança: há mais meninas interessadas em jornalismo esportivo, mais abertura para chamadas em programas e mais debates sobre diversidade nas rádios e televisões.
Copa do Mundo Feminina 2027 e legado social
Em 2027, o Brasil sediará pela primeira vez a Copa do Mundo de Futebol Feminino, torneio que deverá ser disputado entre 24 de junho e 25 de julho em oito capitais: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza e Recife. A competição, além de reforçar a visibilidade internacional do futebol feminino brasileiro, é apontada como marco para ampliar investimentos em infraestrutura, formação de base e programas de inclusão de mulheres no esporte.
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) já integra esse contexto como parceira institucional, com programas e transmissões voltados para o futebol feminino. A TV Brasil, por exemplo, exibe pela terceira temporada consecutiva jogos da Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino, além de confrontos decisivos das Séries A2 e A3 e das finais das categorias Sub‑17 e Sub‑20. Essa aposta em cobertura regular ajuda a consolidar o torneio como produto esportivo de interesse público, não apenas como vitrine pontual em grandes competições.
- O Mês da Mulher reforça que a presença de mulheres no futebol ainda enfrenta preconceito, mas também que a determinação individual é essencial para romper barreiras.
- Formiga destaca que mais estrutura de base e políticas públicas são necessárias para garantir segurança e oportunidades para meninas e mulheres em todos os cargos do futebol.
- A narradora Luciana Zogaib traz à luz o machismo histórico nas cabines de transmissão e defende a ampliação de vagas para profissionais mulheres.
- A Copa do Mundo Feminina 2027, no Brasil, é vista como impulso para deixar legado esportivo e social, com mais visibilidade, investimentos e programas de formação.
Em um país onde o futebol tem alcance quase sagrado, a presença crescente de mulheres em campo, nos bancos de treinadoras e nas cabines de narração mostra que o esporte não suporta mais um único rosto. A luta cotidiana das atletas, das meninas em formação e das profissionais de comunicação é, ao mesmo tempo, um recado: o futebol feminino não é nicho a ser tolerado, mas pilar fundamental da história do esporte brasileiro.