Representação editorial dos desafios do sistema multilateral de comércio diante da maior participação de economias emergentes.
(Imagem: gerado por IA)
A crescente participação de economias emergentes como Brasil, China e outros países de renda média está mudando a distribuição do poder no comércio global e pressionando regras criadas para uma realidade econômica muito diferente. A conclusão é do Relatório Mundial do Comércio 2026, divulgado nesta terça-feira (15) pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
Segundo o documento, a participação das economias de renda baixa e média no comércio mundial de mercadorias quase dobrou desde 1995 e chegou a cerca de 45%. O avanço ampliou a presença de países emergentes nas cadeias globais, mas também tornou mais complexas as negociações sobre tarifas, subsídios, acesso a mercados e tratamento diferenciado.
Sistema ficou mais multipolar
A OMC afirma que o sistema multilateral passou a funcionar em uma economia muito mais integrada e multipolar. Países que tinham peso relativamente menor quando as principais regras foram negociadas agora exercem influência muito maior sobre produção, exportações, tecnologia e investimentos.
Esse deslocamento cria tensões porque compromissos tarifários e flexibilidades negociados décadas atrás nem sempre refletem o atual poder de mercado de cada membro.
Brasil e China simbolizam nova distribuição de poder
O relatório não trata a ascensão das economias emergentes apenas como um problema. A OMC reconhece que a expansão desses países ampliou o comércio, reduziu barreiras e abriu novas possibilidades de negociação entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a organização destaca que o grupo classificado como países em desenvolvimento tornou-se muito heterogêneo. Ele inclui desde economias de baixa renda e pequena participação internacional até grandes exportadores com elevada capacidade industrial e tecnológica.
72% do comércio ainda segue regras não discriminatórias
Apesar das tensões geopolíticas e do avanço de medidas unilaterais, a OMC calcula que cerca de 72% do comércio mundial de mercadorias ainda ocorre sob tarifas de nação mais favorecida negociadas no sistema multilateral.
Para a organização, esse dado mostra que as regras comuns continuam tendo papel central na previsibilidade das relações comerciais, mesmo em um ambiente de maior rivalidade entre grandes potências.
Subsídios e intervenção estatal elevam tensão
Outro desafio identificado é o aumento da intervenção dos governos na economia. Subsídios industriais, empresas estatais, incentivos tecnológicos e políticas de segurança econômica passaram a ocupar espaço maior nas disputas comerciais.
A OMC observa que o sistema não exige que todos os países adotem o mesmo modelo econômico, mas precisa de regras capazes de impedir que intervenções domésticas anulem compromissos de abertura comercial assumidos internacionalmente.
Tecnologia e IA criam novas disputas
Digitalização, inteligência artificial e controle de tecnologias estratégicas também estão mudando a natureza do comércio. Restrições a semicondutores, dados, investimentos e transferência de tecnologia aumentaram a sobreposição entre comércio e segurança nacional.
Para a OMC, esse movimento torna mais difícil separar medidas legítimas de segurança de ações protecionistas e aumenta o risco de retaliações em cadeia.
Fragmentação pode custar caro
Simulações apresentadas no relatório mostram que uma deterioração profunda da cooperação multilateral teria impacto econômico relevante. Em um cenário de substituição das regras comuns por uma rede fragmentada de acordos, os países menos desenvolvidos poderiam perder até 16,5% do PIB.
Em sentido oposto, uma cooperação multilateral mais profunda poderia elevar o PIB global em cerca de 2,9%, com ganhos proporcionalmente maiores para as economias menos desenvolvidas.
OMC defende reforma, não abandono das regras
O relatório sustenta que preservar o sistema multilateral não significa manter todas as regras atuais sem mudanças. A organização argumenta que o comércio mundial mudou e que normas, compromissos e mecanismos de negociação precisam acompanhar essa transformação.
Entre os pontos de pressão estão a paralisação do Órgão de Apelação, disputas sobre subsídios, tratamento especial para países em desenvolvimento, comércio digital, clima e segurança econômica.
A principal mensagem da OMC é que uma economia global mais multipolar exige atualização das regras e maior capacidade de cooperação. Para países como o Brasil, que dependem de mercados diversos e de regras previsíveis para exportar, o funcionamento do sistema multilateral continua sendo estratégico.