Fachada de unidade do Habib's, marca que agora tenta reestruturar dívida milionária na Justiça paulista.
(Imagem: Habib's/Divulgação)
O mercado de alimentação rápida no Brasil sofreu um forte abalo com a confirmação de que o Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, teve seu pedido de recuperação judicial aceito pela Justiça de São Paulo após declarar uma dívida acumulada de R$ 265,2 milhões.
A decisão, proferida pelo juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, coloca uma das marcas mais populares do país sob a supervisão da consultoria KPMG, nomeada como administradora judicial do processo.
Na prática, o movimento tenta blindar a operação contra a falência imediata, suspendendo execuções de cobranças por um período determinado para que a empresa tente respirar e se reorganizar financeiramente. Apesar do sinal de alerta, a holding garante que as lojas seguem funcionando normalmente e sem interrupções no atendimento ao público.
Como a gigante das esfihas baratas chegou à crise
Fundado em 1987 sob uma premissa agressiva de preços extremamente baixos e alto volume de vendas, o Habib's se consolidou como uma alternativa barata para a classe média brasileira. No entanto, o modelo de negócios baseado em margens de lucro estreitas mostrou-se vulnerável a choques macroeconômicos recentes.
No processo judicial, o Grupo Gennius apontou uma tríade de fatores para justificar o sufoco financeiro: as sequelas prolongadas da pandemia de covid-19, a mudança drástica nos hábitos de consumo com a ascensão do delivery e a escalada recente dos juros básicos no país.
O esvaziamento de shoppings e centros comerciais durante o período de restrições sanitárias golpeou diretamente as lojas físicas da rede, que dependem do fluxo constante de pessoas. Ao mesmo tempo, a migração em massa para os aplicativos de entrega encareceu a operação devido às taxas cobradas por plataformas terceiras, achatando ainda mais as margens.
O que muda na prática para consumidores e funcionários
Para quem frequenta as lojas ou faz pedidos em casa, pouca coisa deve mudar no curto prazo. O objetivo de um processo de recuperação é justamente manter a empresa ativa e gerando caixa para honrar seus compromissos futuros.
Contudo, o impacto estrutural da dívida de R$ 265,2 milhões exige atenção. Desse montante, R$ 22,3 milhões referem-se a débitos trabalhistas, uma das categorias prioritárias e mais sensíveis do processo. A maior parcela, de R$ 241,7 milhões, está concentrada em créditos quirografários, que são obrigações com fornecedores e bancos sem garantias reais.
No momento, a Justiça optou por não liberar os recebíveis bancários que o grupo utilizava como garantia, o que limita temporariamente o fôlego de caixa imediato da companhia, embora proteja os ativos gerais da rede.
O que pode acontecer a partir de agora
O relógio agora corre contra a administração do Grupo Gennius. A partir da nomeação, a KPMG dispõe de 15 dias para apresentar uma radiografia minuciosa da situação contábil das empresas, período no qual os credores também podem contestar os valores listados.
Posteriormente, a empresa terá o prazo rígido de 60 dias para formular e apresentar um plano detalhado de reestruturação. Se o cronograma não for cumprido à risca, a recuperação judicial pode ser convertida automaticamente em falência pela Justiça.
O plano de retomada desenhado pelo grupo prevê uma profunda reorganização societária, além de apostar na abertura de lojas em praças mais promissoras e no fortalecimento dos canais digitais próprios de entrega. O desafio será provar ao mercado que a marca que alimentou gerações com esfihas a preços populares ainda consegue se manter viável em tempos de juros altos e concorrência acirrada.