Subestação de energia elétrica integrada ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
(Imagem: gerado por IA)
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou um plano de emergência neste domingo (23) para cortar o excesso na geração de energia elétrica no país. A medida, realizada entre as 11h e as 13h30, foi necessária para proteger a integridade física das redes de transmissão e evitar riscos de apagões provocados por sobrecarga.
Embora a intervenção direta assuste, ela não impacta o consumidor residencial de forma imediata. O corte foi direcionado exclusivamente às distribuidoras de energia e atingiu as chamadas usinas de Tipo 3, que incluem pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), plantas de biomassa e pequenos parques eólicos e solares de menor porte.
Na prática, o sistema elétrico nacional enfrentou um cenário clássico de fim de semana: baixa atividade industrial aliada a uma produção massiva de energia renovável, especialmente solar, durante o pico do meio-dia. Quando há mais oferta do que demanda, a voltagem da rede sobe perigosamente, ameaçando a estabilidade do abastecimento em vários estados.
O que está por trás do corte de segurança
Esta é a segunda vez que o ONS adota essa medida extrema somente neste ano. O primeiro corte ocorreu em 7 de junho, durante o feriado de Corpus Christi, quando o operador precisou conter cerca de 1 mil megawatts (MW) para reequilibrar a rede nacional.
O plano emergencial foi formalmente desenhado e aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em 2025. A sua criação foi uma resposta direta a um quase colapso registrado no Dia dos Pais daquele ano, quando a geração distribuída (painéis solares residenciais e comerciais) disparou e respondeu por assustadores 37,6% de toda a demanda de eletricidade do Brasil. Naquele dia, para evitar o pior, o ONS teve de cortar quase a totalidade da produção eólica e solar centralizada.
O que muda na prática a partir de agora
E é aqui que está o ponto central: o Brasil hoje possui cerca de 50 gigawatts (GW) de capacidade instalada de geração distribuída, mas o ONS não consegue enxergar ou controlar essa produção em tempo real de forma individualizada. Para contornar esse ponto cego tecnológico, o operador anunciou o desenvolvimento do Esquema Regional de Alívio de Geração (Erag).
Esse novo sistema funcionará de forma totalmente automática a partir do fim de 2026, com capacidade de desligar até 3 GW de microgeradores solares em situações de risco crítico à rede. Um projeto-piloto será testado em uma distribuidora local antes de sua implementação nacional definitiva, prevista para 2027.
Apesar de necessária, a transição para esse novo modelo de controle automático ainda gera atritos e debates intensos no setor. A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) cobrou regras mais detalhadas e transparentes para a execução desses cortes. Afinal, definir critérios claros é crucial para garantir a segurança jurídica de investidores e produtores que, no futuro, podem ver suas plantas de energia solar desligadas à distância com o apertar de um botão.