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Economia

Engenharia social responde por 40% dos golpes financeiros no Brasil

Golpes de engenharia social já representam 40% das fraudes financeiras no Brasil, impulsionados pelo uso de celulares e transações via Pix.

22 ago 2026 - 13h38 Joice Gomes   atualizado às 13h39
Engenharia social responde por 40% dos golpes financeiros no Brasil Jovens adultos e pessoas de menor renda são as principais vítimas de golpes de engenharia social aplicados por meio do telefone celular. (Imagem: Reprodução/Freepick)

Quatro em cada dez tentativas de golpes financeiros registradas no Brasil não exploram falhas tecnológicas nos aplicativos dos bancos, mas sim a vulnerabilidade psicológica dos próprios correntistas. A chamada engenharia social, técnica que manipula a confiança, o medo e a urgência das vítimas, já responde por 40% de todos os indícios de fraudes financeiras no país.

Segundo dados inéditos da datatech Quod, o primeiro semestre de 2026 acendeu um alerta vermelho no mercado financeiro. Foram detectados mais de 9 milhões de indícios de fraude entre casos confirmados e suspeitos, representando uma alta expressiva de 10,26% na comparação com o semestre anterior. Desse total, as abordagens baseadas em manipulação humana somaram impressionantes 3,6 milhões de registros.

O ecossistema desse crime é predominantemente móvel e instantâneo. O aparelho celular consolidou-se como a principal ferramenta de abordagem dos criminosos, estando presente em 78% das ocorrências, enquanto o Pix foi o método de transferência de valores utilizado em 85% dos casos de sucesso da quadrilha.

Como os golpistas manipulam as decisões das vítimas na prática

A engenharia social se diferencia dos ataques cibernéticos tradicionais porque seu alvo não é o código de segurança do banco, mas sim o comportamento humano. Os criminosos criam roteiros complexos e teatralizados para induzir decisões rápidas e precipitadas.

No conhecido golpe do falso call center, por exemplo, simula-se uma central oficial informando uma falsa transação suspeita. Sob forte pressão psicológica, a vítima é induzida a "proteger" seu dinheiro realizando transferências imediatas para contas controladas pelos golpistas.

Mas o impacto vai além. Em abordagens mais sofisticadas, os criminosos chegam a se passar por autoridades policiais em falsas investigações. Com o avanço da tecnologia, ferramentas de inteligência artificial agora permitem clonar vozes de familiares e forjar documentos institucionais com perfeição assustadora.

O limite da inteligência artificial e a ilusão da segurança tecnológica

Para o especialista em segurança digital José Oliveira, diretor de Tecnologia da Certta, há um descompasso claro entre a proteção sistêmica e a defesa do usuário. As defesas corporativas tradicionais focam em proteger o sistema, enquanto o crime foca na mente de quem o opera.

“A inteligência artificial antifraude foi desenhada para combater a fraude documental ou a invasão de sistemas. A engenharia social ataca uma camada diferente: a decisão humana”, explica Oliveira, apontando que as instituições precisam usar a tecnologia de forma preventiva para antecipar comportamentos suspeitos antes que o dinheiro saia da conta.

E é aqui que está o ponto central de vulnerabilidade coletiva: um levantamento recente feito em parceria com a Nexus revela que apenas 11% das discussões públicas sobre o tema nas redes sociais tratam de prevenção. A esmagadora maioria das buscas ocorre somente após o prejuízo consumado.

Quem são as principais vítimas e como se proteger

Ao contrário do que o senso comum sugere, os mais jovens são os mais atingidos por essa modalidade de crime. O estudo da Quod revela que pessoas entre 18 e 34 anos respondem por 49,06% das vítimas de engenharia social. Além disso, a vulnerabilidade econômica é latente, com 58% dos afetados recebendo até dois salários mínimos.

Ao todo, 3,1 milhões de brasileiros foram lesados nos primeiros seis meses do ano, sendo que cerca de 799 mil pessoas caíram em armadilhas financeiras duas ou mais vezes no período.

Para evitar perdas financeiras irreparáveis, especialistas recomendam a adoção imediata de hábitos de segurança comportamental:

1. Desconfie da urgência: Instituições financeiras sérias nunca pressionam clientes a tomar decisões imediatas ou realizar transferências sob pretexto de segurança.

2. Desligue e cheque: Se receber um alerta sobre transações suspeitas, desligue o telefone e ligue você mesmo para o número oficial impresso atrás do seu cartão bancário.

3. Proteja seus dados: Nunca compartilhe senhas, códigos de autenticação temporária por SMS ou tokens com quem quer que seja por telefone.

4. Revise antes do Pix: Antes de confirmar qualquer transação de urgência, confirme a identidade do destinatário e jamais empreste sua conta para transações de terceiros.

A consolidação dessas boas práticas reduz drasticamente as chances de sucesso dos criminosos, que dependem quase que exclusivamente da distração momentânea do usuário para obter o controle dos recursos.

O que esperar do cenário de fraudes digitais no Brasil

As novas diretrizes regulatórias, como a Resolução 501 do Banco Central e a criação do Registro Unificado de Fraudes (Rufra), buscam acelerar o compartilhamento de dados de golpes entre bancos, facilitando o bloqueio rápido de contas suspeitas.

No entanto, a barreira definitiva contra a engenharia social continuará sendo a conscientização. Em um cenário onde a inteligência artificial torna as mentiras cada vez mais convincentes, a única vacina verdadeiramente eficaz para o bolso do cidadão é a dúvida sistemática diante de qualquer solicitação financeira inesperada.

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