Consumidores realizam compras, o que impulsionou o comércio no mês.
(Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Aliviadas pela perda de fôlego da inflação e pelo fortalecimento do mercado de trabalho, as vendas no comércio brasileiro registraram alta de 0,5% na passagem de maio para junho. Esse avanço garantiu que o setor fechasse o primeiro semestre com um crescimento consolidado de 1,9% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Os dados são da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado mostra que o consumo das famílias segue resiliente e operando em patamares historicamente elevados, muito próximo de seu teto operacional.
Na prática, o desempenho recente deixa o comércio varejista apenas 0,8% abaixo do maior nível já registrado em toda a série histórica, alcançado em março deste ano. Estar tão próximo do topo traz um desafio duplo: manter o ritmo de expansão sob bases de comparação já bastante elevadas.
O que está por trás do fôlego do varejo
Mas o impacto vai além dos números frios de vendas. Dois pilares macroeconômicos foram determinantes para que o brasileiro continuasse consumindo em junho. O primeiro deles foi a forte desaceleração da inflação oficial, que despencou de 0,58% em maio para 0,16% em junho, devolvendo parte do poder de compra aos salários.
Paralelamente, o mercado de trabalho continuou gerando postos de trabalho, apresentando uma alta de 1,1% no contingente de pessoas ocupadas entre os meses analisados. Mais pessoas com carteira assinada ou renda garantida significam, diretamente, mais recursos circulando nas caixas registradoras.
De acordo com o analista da pesquisa, Cristiano Santos, o setor vive hoje um efeito de acomodação em patamar elevado. Santos explica que crescer de forma expressiva quando já se está no topo é estatisticamente mais difícil, o que valoriza o resultado marginal positivo do período.
Como isso afeta os diferentes setores de consumo
O crescimento de junho, contudo, não ocorreu de forma homogênea. Metade das oito atividades pesquisadas pelo IBGE registrou saldo positivo. O grande motor do mês foi o segmento de hiper e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que cresceu 1,1% e exerceu forte peso no índice geral.
Por outro lado, setores que dependem mais de crédito ou de maior folga orçamentária enfrentaram oscilações naturais. O comércio de tecidos, vestuário e calçados encolheu 2,6%, enquanto a venda de livros, jornais e papelaria recuou 9,9% no período, evidenciando uma mudança estrutural nos hábitos cotidianos.
No varejo ampliado — indicador que engloba as vendas de veículos, autopeças, material de construção e atacado —, houve um recuo de 1,0% em junho, embora o acumulado do semestre ainda sustente uma alta de 1,9%. Esse recuo pontual reflete oscilações normais nas decisões de compras de maior valor planejado.
O que pode acontecer a partir disso
Quando olhamos para o conjunto da economia brasileira, o comércio se destaca como um importante amortecedor de choques. Enquanto o setor de serviços ficou estável (0%) e a produção industrial recuou 1,8% no fechamento do período, o varejo demonstrou maior capacidade de resistência.
E é aqui que está o ponto central para os próximos meses. A sustentabilidade desse crescimento dependerá diretamente de como a inflação se comportará no segundo semestre e do espaço que haverá para a manutenção do consumo. Com o mercado de trabalho aquecido, a expectativa é que a circulação de renda continue dando suporte às atividades comerciais no país.