Cera do ouvido pode conter informações importantes sobre alterações metabólicas no organismo.
(Imagem: Canva / Imagem ilustrativa)
A cera do ouvido, geralmente vista apenas como um resíduo corporal sem grande relevância, pode se tornar uma ferramenta importante na detecção precoce do câncer. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou que a análise do cerúmen, substância produzida naturalmente pelo ouvido pode indicar alterações metabólicas associadas à doença antes mesmo que exames clínicos tradicionais apontem o problema.
A pesquisa é liderada por cientistas da Universidade Federal de Goiás (UFG), em parceria com o Hospital Amaral Carvalho, referência nacional no tratamento oncológico, localizado em Jaú, no interior de São Paulo. Os resultados foram publicados na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, uma das publicações mais respeitadas da comunidade científica internacional.
Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram amostras de cera do ouvido de 751 voluntários. Desse total, 220 pessoas não possuíam diagnóstico prévio de câncer. Em cinco desses casos, o exame identificou substâncias metabólicas consideradas atípicas. Posteriormente, avaliações clínicas convencionais confirmaram o diagnóstico da doença nesses pacientes.
Entre os outros 531 participantes, que já estavam em tratamento oncológico, o método conseguiu identificar corretamente a presença do câncer em todos os casos analisados. A técnica também demonstrou capacidade de diferenciar tumores benignos e malignos, além de apontar estágios iniciais da doença e até situações de remissão.
A inovação foi batizada de Cerumenograma. O método parte do princípio de que a cera do ouvido é uma matriz rica em lipídios e compostos metabólicos, capazes de refletir mudanças químicas que ocorrem no organismo como um todo.
Diagnóstico antes do aparecimento dos sintomas
Um dos principais avanços do Cerumenograma é a possibilidade de identificar sinais da doença antes mesmo do primeiro estadiamento clínico. Segundo os pesquisadores, detectar o câncer em fases extremamente iniciais pode aumentar de forma significativa as chances de tratamento bem-sucedido e reduzir os custos médicos associados a terapias mais complexas.
Além da aplicação oncológica, o grupo de pesquisa já estuda o uso da técnica para auxiliar no diagnóstico de outras condições, como diabetes, Alzheimer, Parkinson e doenças neurodegenerativas. Isso amplia o potencial do exame como uma ferramenta de medicina preventiva e de monitoramento da saúde.
Próximos passos e impacto na saúde pública
Apesar dos resultados promissores, o método ainda precisa passar por etapas de validação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Ministério da Saúde. Somente após essas análises o exame poderá ser incorporado à rede pública ou à prática clínica regular.
A expectativa dos pesquisadores é que, no futuro, o Cerumenograma se torne uma alternativa mais acessível, menos invasiva e mais econômica do que muitos exames atualmente utilizados. Caso aprovado, o método pode representar uma mudança significativa na medicina preventiva, permitindo diagnósticos mais rápidos, tratamentos menos agressivos e melhoria na expectativa de vida da população.