Câncer de pele no Brasil saltou de 4 mil para mais de 72 mil diagnósticos em dez anos.
(Imagem: Agência Brasil/Fernando Frazão)
O Brasil vive um crescimento impressionante no número de casos de câncer de pele. Em apenas dez anos, os diagnósticos passaram de 4.237 registros em 2014 para impressionantes 72.728 em 2024, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Esse salto não é aleatório: combina maior exposição ao sol intenso, envelhecimento da população, perfil de pele mais clara em várias regiões e, felizmente, melhorias na notificação de casos que antes passavam despercebidos.
Embora o avanço na vigilância ajude a explicar parte do aumento, os números reais preocupam os especialistas. O câncer de pele, muitas vezes silencioso no início, pode evoluir rapidamente se não for pego a tempo. Manchas que não cicatrizam, verrugas que sangram ou áreas endurecidas na pele merecem atenção imediata de um dermatologista, especialmente para quem passa muito tempo ao ar livre ou tem histórico familiar da doença.
Regiões mais afetadas pelo problema
A incidência de câncer de pele segue um mapa bem claro no país. Sul e Sudeste lideram com folga, onde Espírito Santo registra 139 casos por 100 mil habitantes, seguido por Santa Catarina com 95 e Rondônia com 85. Esses estados combinam alta exposição solar, populações de pele clara e envelhecimento demográfico acelerado, criando o terreno perfeito para a doença prosperar.
No Norte e Nordeste, os índices são menores, mas o crescimento chama atenção. Ceará, por exemplo, saltou para 68 casos por 100 mil, enquanto Rondônia se destaca fora do eixo tradicional. Em locais como Roraima, Acre e Amapá, onde o registro sempre foi fraco, o aumento pode sinalizar tanto mais casos reais quanto evolução da vigilância em áreas remotas, ainda marcadas por subnotificação crônica.
Filas no SUS dificultam detecção precoce
O diagnóstico precoce salva vidas no câncer de pele, mas o acesso a ele é um drama à parte. Quem depende do SUS enfrenta fila 2,6 vezes maior para consultar um dermatologista do que usuários de planos de saúde. Essa disparidade fica clara nos números: enquanto o SUS registra cerca de 4 milhões de atendimentos por ano, a rede privada beira os 10 milhões, oferecendo chance bem maior de flagrar lesões suspeitas no início.
A pandemia piorou tudo, derrubando consultas no SUS de 4 milhões para 2,3 milhões em 2020. A recuperação veio aos poucos, mas 2024 ainda não igualou o pico pré-crise. No privado, o atendimento nunca parou de fluir, com índices sempre duas a cinco vezes superiores. Sem exame clínico visual regular, o melanoma, forma mais agressiva do câncer de pele, avança sem alarde até exigir tratamentos radicais.
- SUS recuperou pré-pandemia, mas fica aquém da demanda real por dermatologistas.
- Rede privada garante 2 a 5 vezes mais consultas, ampliando chances de detecção precoce.
- Mutirões e campanhas ajudam, mas estrutura fixa é essencial para conter o avanço da doença.
Tratamento concentrado agrava desigualdades
Depois do diagnóstico, o calvário continua para muitos. Centros de alta complexidade em oncologia se concentram em poucos estados: São Paulo tem 57 unidades, Minas Gerais 31 e Rio Grande do Sul 28. Já Acre, Amazonas e Amapá sobrevivem com apenas um serviço cada, forçando viagens longas e custosas que atrasam a terapia.
O tempo entre diagnóstico e tratamento é crítico. No Sul e Sudeste, 30 dias separam os dois momentos na maioria dos casos. No Norte e Nordeste, 60 dias viram regra, permitindo que o câncer de pele progrida para estágios avançados, com cirurgias mutilantes, quimio ou radioterapia. Essa espera não só complica o quadro clínico como eleva custos ao sistema e sofrimento aos pacientes.
Saídas para frear a epidemia silenciosa
Prevenir é o melhor remédio contra o câncer de pele, e especialistas batem na tecla do protetor solar acessível. A SBD pressiona o Congresso para incluir o filtro na lista de essenciais da Reforma Tributária, cortando impostos e baixando preços para todos. Combinado com campanhas educativas nas escolas, UBS e empresas, isso pode mudar o jogo.
Os dados já estão nas mãos de deputados e senadores, servindo de base para regulamentar a Lei 14.758/2023. Essa política nacional visa prevenção, controle e navegação assistida para pacientes oncológicos no SUS. Ampliar consultas, encurtar filas, espalhar centros especializados e conscientizar sobre ABCDE das lesões suspeitas (assimetria, bordas irregulares, cor variada, diâmetro acima de 6mm, evolução) formam o arsenal contra essa ameaça crescente.
Enquanto governos e entidades correm atrás do prejuízo, cada cidadão pode agir hoje: protetor fator 50+, roupas com proteção UV, chapéu e sombra entre 10h e 16h. O câncer de pele matou milhares no Brasil nos últimos anos, mas 90% dos casos em estágio inicial se curam completamente. A escolha está nas nossas mãos – e na pele.