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Internet precária

Além do "fake": por que a internet precária e o cansaço são as novas barreiras da informação

A desinformação no Brasil vai além das mentiras: internet precária e falta de tempo impedem milhões de brasileiros de acessar conteúdos confiáveis.

14 mai 2026 - 08h50 Joice Gomes   atualizado às 08h52
Além do "fake": por que a internet precária e o cansaço são as novas barreiras da informação Falta de conexão estável e rotinas cansativas são as maiores aliadas das notícias falsas em comunidades periféricas. (Imagem: gerado por IA)

Uma conexão de internet instável ou um pacote de dados que termina antes do fim do mês são obstáculos muito mais profundos do que um simples incômodo técnico. Para milhões de brasileiros nas periferias e territórios indígenas, essa precariedade digital é a principal barreira para o acesso à informação de qualidade, criando um vácuo onde a desinformação se instala com facilidade.

A conclusão faz parte da pesquisa "Dos territórios indígenas às periferias", divulgada nesta quarta-feira (13). O levantamento, realizado pela Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas, mapeou a realidade de 1,5 mil pessoas em Santarém (PA), Recife (PE) e São Paulo (SP), expondo as rachaduras de um sistema que muitas vezes ignora quem está na ponta.

Na prática, isso muda mais do que parece. Não se trata apenas de "saber" o que é verdade ou mentira, mas de ter as ferramentas e o tempo necessários para discernir os fatos em meio a uma rotina de sobrevivência.

O que está por trás da dificuldade em se manter informado

O estudo revela que um em cada quatro entrevistados enfrenta dificuldades severas de conexão. Mas o problema ganha camadas de complexidade quando analisamos o fator tempo: 16% dos participantes relataram que a rotina exaustiva e o acúmulo de funções, realidade marcante para as mulheres, impedem a verificação de conteúdos recebidos.

Quando o dia é consumido por deslocamentos longos e jornadas de trabalho duplas, a capacidade de refletir sobre uma mensagem de WhatsApp é drasticamente reduzida. E é aqui que está o ponto central: a desinformação não prospera apenas pela ignorância, mas pela exaustão física e mental de quem recebe a notícia.

Além disso, a falta de identificação com os meios tradicionais cria um distanciamento perigoso. Muitos moradores sentem que o jornalismo convencional "fala para eles", mas raramente "fala sobre eles" ou os escuta de forma legítima.

Por que o jornalismo local e as lideranças são a chave

Curiosamente, enquanto o senso comum aponta os influenciadores digitais como os novos donos da opinião pública, a pesquisa mostra o contrário. Nas periferias, os influenciadores aparecem no final da fila da confiança, atrás até mesmo de grupos de WhatsApp.

A verdadeira autoridade reside no território. Professores, lideranças comunitárias e veículos de mídia local são apontados como as fontes mais seguras. Isso acontece porque a confiança, nesses contextos, é construída por meio de experiências compartilhadas e referências diretas de quem vive a mesma realidade.

Em cidades como Santarém, por exemplo, onde o sinal digital é escasso, o rádio e a TV aberta ainda sustentam um papel vital que a internet não conseguiu suprir integralmente. Essa dinâmica regional prova que soluções globais nem sempre funcionam para problemas locais.

O que pode acontecer a partir de agora no combate às fake news

O estudo sugere que combater a desinformação exige mais do que agências de checagem. É preciso uma reorganização do financiamento e da lógica de produção. Entre as 16 recomendações apresentadas, destaca-se a urgência de formatos mais leves, como áudios e vídeos curtos, que consumam menos dados e respeitem a linguagem das comunidades.

Thais Siqueira, diretora da Coalizão e coordenadora do estudo, enfatiza que o jornalismo precisa parar de ser apenas um emissor unilateral. A proposta é uma comunicação que reconheça os saberes coletivos e os modos próprios de cada território validar o que é verdade.

Fortalecer as mídias periféricas não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia de defesa democrática. No final das contas, o acesso à informação só é real quando ele é inclusivo, financeiramente viável e, acima de tudo, humano o suficiente para ser compreendido entre um turno de trabalho e outro.

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