Imperatriz Leopoldinense vai homenagear Ney Matogrosso, celebrando sua obra icônica e estética rebelde no Carnaval do Rio 2026.
(Imagem: Wagner Rodrigues/Divulgação Imperatriz)
A Imperatriz Leopoldinense, verde e branca de Ramos, está pronta para um dos desfiles mais aguardados do enredo Camaleônico. O tributo ao cantor Ney Matogrosso promete levar à Avenida Marquês de Sapucaí o universo transgressor e multifacetado do artista, com mais de 50 anos de carreira marcada por ousadia e liberdade.
O carnavalesco Leandro Vieira, responsável pelo projeto, enfatiza que o desfile não segue uma linha biográfica tradicional. Em vez disso, foca na obra musical e no impacto estético de Ney, que transformou o corpo em manifesto político e o visual em bandeira de resistência.
"O enredo Camaleônico celebra o Ney que recusou rótulos, assumindo múltiplas personalidades: bicho selvagem, andrógeno, bandido sensual", explica Vieira em entrevistas recentes. A escola, que desfila no segundo dia do Grupo Especial, em 15 de fevereiro, busca seu décimo título com essa proposta inovadora.
Universo transgressor de Ney na avenida
O enredo Camaleônico vai recriar fases icônicas da trajetória de Ney Matogrosso. Desde os Secos & Molhados, com sucessos como "O Vira" que encantaram até crianças, até álbuns como "Bandido" (1976), onde o cantor se apresenta como um bandido andrógeno em strip-tease provocativo.
Outro destaque será o homem neandertal, personagem criado em 1975 para desafiar a ditadura militar. Ney optou por ser "bicho" em tempos de repressão, lançando discos como "Pecado" e posando seminu em capas censuradas. "Ele contrariou o normativo social, transformando-se em fauno mitológico", relata Vieira.
A escola planeja nove alegorias e cerca de 3 mil componentes em cinco setores, explorando temas como hedonismo, prazer e sexualidade. O público diversificado de Ney, de crianças a LGBTQIA+, sempre aplaudiu sua autenticidade, sem reações contrárias.
- Fase Secos & Molhados: Máscaras, coreografias enfeitadas e sucessos eternos.
- Bandido sensual: Strip-tease e estética provocativa dos anos 70.
- Neandertal e fauno: Resistência à ditadura com corpos primitivos e mitológicos.
- Persona sexualizada: Figurinos exuberantes de "Homem com H" e "Metamorfose Ambulante".
- Camaleão eterno: Liberdade de ser quem se quer, sem estereótipos.
Envolvimento direto de Ney no projeto
Ney Matogrosso, inicialmente relutante em ser enredo, aceitou o convite de Leandro Vieira por sentir que era o momento certo. Aos 84 anos, o cantor tem participado ativamente: visitou a quadra em Ramos, o barracão na Cidade do Samba e até gravou o samba-enredo oficial com a intérprete Pitty de Menezes e o mestre de bateria Lolo.
"Estou voando em céu de brigadeiro no processo criativo", confessa Vieira sobre a parceria. Ney se emociona com figurinos que recriam sua história e elogia o capricho: "É tudo muito bem feito, estou satisfeito com o que vejo". Ele já desfilou em outros carnavais, como na homenagem a Chico Buarque pela Mangueira.
Recentemente, Ney comandou ensaios na comunidade do Complexo do Alemão e Rua Euclides Faria, sendo recebido com carinho. Sua presença fortalece a escola, que une transgressão estética a discurso político, alinhado ao DNA carnavalesco de Ney.
Samba-enredo e críticas no caminho da Sapucaí
O samba "Camaleônico" foi escolhido em setembro de 2025 após disputa acirrada na quadra, com junção de duas obras. Letra poética evoca "meio homem, meio bicho", "pássaro, mulher" e hits como "Sangue Latino" e "Rosa de Hiroshima". Ney gravou participação para plataformas oficiais.
Apesar do entusiasmo, o samba recebeu críticas de blogs especializados, como o de Mauro Ferreira no G1, que considera a composição abaixo do potencial de Ney. "Merecia algo muito melhor", apontou, mas reconhece que o desfile pode elevar o hino na avenida.
A Imperatriz responde com otimismo. Presidente Catia Drumond destaca o equilíbrio das parcerias e a força para ser "cantado ao longo dos meses". A bateria, sob comando de Mestre Lolo, promete "muita bossa" para embalar o público rumo ao título.
Imperatriz em fase camaleônica
Leandro Vieira vê no enredo Camaleônico a coroação de uma fase ousada da Imperatriz, deixando a imagem de "certinha de Ramos". Enredos recentes abraçaram multiplicidade e liberdade, com Ney como símbolo perfeito: "Ele é carnaval em pessoa".
Rainha de bateria Iza já se caracterizou como Ney, compartilhando imagens nas redes. A escola explana o enredo para compositores e prepara documentários, ampliando o alcance. Ney realizou show especial "Bloco na Rua" no Vivo Rio, conectando sua arte ao samba.
Ordem de desfiles confirma Imperatriz como segunda no domingo: após Acadêmicos de Niterói (Lula), antes de Portela e Mangueira. Com adversários fortes como Mocidade (Rita Lee) e Salgueiro, a aposta é na autenticidade para reconquistar o pódio após anos de luta.
O enredo Camaleônico transcende o desfile: é bandeira do direito de ser quem se é, ecoando lutas por diversidade. Ney, perseguido na ditadura, hoje inspira gerações. A Imperatriz leva essa mensagem à Sapucaí, provando que carnaval é resistência e festa.