Altas temperaturas no Brasil desafiam a saúde pública e exigem estratégias urgentes de adaptação climática.
(Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil)
Mais de 50 mil brasileiros perderam a vida devido a ondas de calor entre os anos de 2000 e 2020. O dado alarmante, extraído de registros do Sistema Único de Saúde (SUS) em 14 regiões metropolitanas, revela uma tragédia silenciosa que mata 20 vezes mais do que os deslizamentos de terra no mesmo período, mas que ainda permanece invisível para as políticas públicas do país.
A falsa sensação de segurança de que, por vivermos em um país tropical, somos imunes ou acostumados ao calor extremo tem cobrado um preço fatal. Ao contrário de uma tempestade ou de um desabamento, onde as mortes são imediatas e geram forte comoção visual, as ondas de calor agem de forma lenta, colapsando o sistema cardiovascular de idosos, crianças e pessoas vulneráveis sem o devido alarde.
Agora, com a iminência de um novo fenômeno El Niño, cientistas alertam que o cenário deve se agravar drasticamente. O aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico altera a circulação de ventos global e promete empurrar os termômetros para patamares recordes, elevando os riscos de secas severas e incêndios florestais fora de controle.
O que muda na prática com o avanço do El Niño
De acordo com especialistas reunidos no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, o El Niño não cria novos problemas, mas atua como um catalisador impiedoso de vulnerabilidades já existentes. Na prática, isso muda a dinâmica de sobrevivência em várias regiões, estabelecendo uma conexão direta entre o calor extremo, a seca e o fogo.
Nos últimos 40 anos, as condições que favorecem incêndios de alta intensidade cresceram cerca de 18% durante os anos sob influência do fenômeno nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Esse acoplamento de eventos climáticos extremos cria um ciclo destrutivo que afeta a biodiversidade, destrói plantações e polui o ar de grandes centros urbanos.
Mas as consequências vão muito além do termômetro. O impacto se ramifica pela economia, afetando diretamente a produção de alimentos, o transporte de cargas em rios secos, a geração de energia hidrelétrica e, consequentemente, o custo de vida das famílias brasileiras.
Como a desigualdade social dita quem sobrevive ao calor
O impacto das ondas de calor expõe de forma cruel a profunda desigualdade social do Brasil. A capacidade de adaptação ao clima extremo não é democrática: enquanto uma parcela da população consegue se refugiar em ambientes climatizados com ar-condicionado, milhões de brasileiros enfrentam noites sufocantes em moradias precárias, muitas vezes cobertas por telhas de metal que acumulam e irradiam o calor urbano.
Diante de um aquecimento médio no país que já se aproxima de 2°C acima da média global, a urgência por planos de adaptação urbana é máxima. Especialistas alertam que o Brasil, como a nona maior economia do mundo, possui recursos para proteger sua população, necessitando apenas de vontade política para transformar dados científicos em ações de salvamento. O futuro das nossas cidades dependerá da rapidez com que decidirmos agir para frear este inimigo invisível.