Crescimento de golpes financeiros e disparidade de renda colocam em risco qualidade de vida da população idosa brasileira.
(Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Seis em cada dez brasileiros com mais de 60 anos dependem exclusivamente dos pagamentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para sobreviver. Esse dado revela que a tão sonhada estabilidade na velhice, para a maioria absoluta da população, é um privilégio distante e diretamente afetado pelas desigualdades acumuladas ao longo de toda a vida ativa.
Enquanto uma parcela muito restrita da sociedade atinge a terceira idade com reservas financeiras consolidadas ou planos de previdência privada robustos, a média real dos benefícios pagos pelo governo é de pouco mais de R$ 3.207,05 por mês valor muito abaixo do teto atual de R$ 8.475,55.
Na prática, isso muda mais do que parece. Essa enorme disparidade de renda não apenas limita o poder de compra e o acesso à saúde, mas também coloca os idosos em uma posição de extrema vulnerabilidade social e financeira, tornando-os alvos fáceis para abusos de terceiros.
O que está por trás do abismo na aposentadoria
De acordo com Alexandre da Silva, secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, o Brasil vive hoje uma realidade de extremos: grupos sociais que chegam facilmente aos 80 anos com poupança de saúde e financeira, contrapostos a uma maioria que não acumula nenhum desses recursos ao longo das décadas.
E é aqui que está o ponto central dessa engrenagem. O histórico profissional reflete diretamente no valor do benefício. Nina Silva, especialista em Finanças e CEO do Movimento Black Money, destaca que trabalhadores pretos e pardos recebem entre 40% e 45% a menos do que trabalhadores brancos na ativa, perpetuando o ciclo da pobreza intergeracional na velhice.
Para combater esse cenário, especialistas apontam que o fortalecimento da economia comunitária e a expansão da educação financeira são essenciais para construir uma base de proteção real, evitando que a pobreza seja um destino inevitável para as próximas gerações.
Como a violência patrimonial se tornou uma epidemia silenciosa
Mas o impacto vai além da escassez de recursos. O crescimento das denúncias de violência patrimonial que envolve o controle, destruição ou apropriação indevida de bens e rendas dos idosos, acendeu um alerta vermelho nas autoridades de segurança e direitos humanos.
Dados do Disque 100 revelam que, somente em 2025, foram registradas mais de 59 mil violações de direitos humanos ligadas a questões patrimoniais contra pessoas idosas. O problema continua avançando em ritmo alarmante, acumulando milhares de novos registros a cada mês.
O caso da mãe do servidor público Flávio Amorim ilustra perfeitamente essa dolorosa dinâmica. Acometida por graves problemas de saúde que comprometeram sua visão, ela teve suas contas bancárias invadidas pela própria filha, que realizou cinco empréstimos consignados, gerando um prejuízo de R$ 370 mil.
O que pode acontecer a partir de agora
O avanço da tecnologia e o desconhecimento digital facilitam a ação de golpistas, muitas vezes inseridos no próprio núcleo familiar da vítima. A necessidade de suporte educacional focado em segurança digital e direitos financeiros torna-se, portanto, uma prioridade nacional urgente.
Esse debate complexo e urgente sobre a sustentabilidade do envelhecimento é o tema central do programa "O relógio financeiro da longevidade", que vai ao ar nesta segunda-feira (10), às 23h, na TV Brasil e no canal oficial da emissora no YouTube.
Entender a relação entre desigualdade estrutural, finanças e segurança física dos idosos é o primeiro passo para construir um país que não apenas vive mais, mas que garante dignidade, amparo e proteção jurídica para aqueles que dedicaram suas vidas à construção da sociedade.