Atraso no registro de notas fiscais nas empresas brasileiras pode comprometer a adaptação à reforma tributária.
(Imagem: gerado por IA)
A menos de nove meses da implementação do Imposto sobre Valor Adicionado (IVA Dual), a realidade operacional nos departamentos fiscais brasileiros revela um cenário preocupante de lentidão e fragilidade. Mais de 62% das empresas levam, em média, 20 dias para registrar uma única nota fiscal no sistema, um gargalo que pode comprometer a transição para o novo modelo tributário.
O dado surge de um levantamento profundo realizado pela V360, que expõe uma desconexão alarmante: enquanto 87% das companhias afirmam possuir um alto nível de tecnologia, a prática mostra que elas sofrem da chamada "falsa automação". Na prática, isso significa que, embora os processos sejam digitais, eles ainda dependem excessivamente de intervenção humana para validações e ajustes manuais.
Essa dependência de tarefas manuais é um risco invisível que tende a se tornar um problema real. Com a chegada da reforma, a pressão sobre as estruturas internas aumentará, exigindo uma agilidade que a maioria das organizações ainda não possui. Para empresas que processam mais de 10 mil notas por mês, cada dia de atraso representa uma perda de controle sobre o fluxo de caixa e a conformidade fiscal.
O que muda na prática com o novo sistema
A transição não será apenas uma mudança de nomes ou alíquotas. O grande desafio está na execução. A partir de 2026, as empresas entrarão em uma fase de testes com alíquotas simbólicas de 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS. Mas o impacto vai além: será necessário destacar esses novos tributos nas notas e preencher campos inéditos de classificação fiscal, tudo isso enquanto o sistema antigo ainda permanece ativo.
Segundo o CEO da V360, Izaias Miguel, muitas empresas acreditam estar prontas porque possuem softwares de gestão (ERPs), mas esses sistemas funcionam como um cérebro que ainda precisa de estímulos manuais para decidir. Atualmente, apenas 49% das companhias conseguem registrar documentos sem nenhuma ação humana, o que deixa a outra metade vulnerável a erros de digitação e falhas de conferência.
Os riscos reais da dependência manual
O estudo aponta que apenas 48% das empresas realizam uma conferência completa, cruzando itens, valores e quantidades com os pedidos originais. O restante opera no escuro, com checagens parciais ou totalmente manuais. Esse cenário é o terreno fértil para pagamentos indevidos e multas pesadas da Receita Federal.
A automação, portanto, deixa de ser um luxo tecnológico para se tornar uma questão de sobrevivência estratégica. Empresas que não conseguirem validar seus dados em tempo real enfrentarão dificuldades colossais para operar sob as regras do IVA Dual, onde a transparência e a velocidade da informação serão as moedas de troca mais valiosas.
No fim das contas, a reforma tributária está funcionando como um espelho que reflete as ineficiências internas das corporações. Aquelas que aproveitarem este período para corrigir a "falsa automação" e integrar de fato seus processos estarão passos à frente, enquanto as que mantiverem o status quo burocrático podem ver seus custos operacionais dispararem no novo horizonte fiscal brasileiro.