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Minerais críticos

A corrida pelos minerais críticos: como a América Latina tenta deixar de ser apenas o 'quintal' das potências

América Latina busca liderar a transição energética transformando reservas de lítio e cobre em indústria nacional, desafiando a dependência de EUA e China.

19 abr 2026 - 11h43 Joice Gomes   atualizado às 11h45
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A corrida pelos minerais críticos: como a América Latina tenta deixar de ser apenas o 'quintal' das potências Minerais como o lítio e o cobre são fundamentais para a transição energética e o desenvolvimento de novas tecnologias globais. (Imagem: gerado por IA)

Detentora de quase metade das reservas mundiais de lítio, a América Latina encontra-se em um momento de decisão histórica que pode definir sua economia pelas próximas décadas. O controle sobre esses minerais, essenciais para baterias de carros elétricos e tecnologias de ponta, tornou-se o principal campo de batalha na disputa comercial entre os Estados Unidos e a China. No entanto, para líderes e especialistas latino-americanos, a oportunidade vai muito além de apenas vender terra e pedras para o exterior.

A estratégia agora é clara: transformar a riqueza natural em inteligência industrial. Em vez de repetir o ciclo histórico de exportador de matérias-primas brutas, a região busca verticalizar a produção. Na prática, isso significa que, em vez de apenas extrair o lítio, o objetivo é produzir as baterias e os componentes tecnológicos em solo latino-americano, retendo o valor agregado e gerando empregos de alta qualificação.

De acordo com dados da Agência Internacional de Energia (AIE), cerca de 45% do lítio e 30% do cobre do planeta estão concentrados em países como Argentina, Chile, Bolívia e Brasil. Mas a realidade atual ainda é de dependência. Enquanto a América Latina possui o recurso, a China domina o refino, controlando cerca de 75% do processamento global de lítio e mais de 90% das terras raras, o que lhe confere um poder de barganha quase absoluto no setor.

O que muda na prática com a industrialização regional

Para o ex-ministro de Minas e Energia da Colômbia, Andrés Camacho, a transição energética não deve ser apenas uma troca de matriz combustível, mas uma oportunidade de desenvolvimento social. Ele argumenta que o avanço para a produção de baterias, e não apenas do mineral bruto, é o que permitirá à região reduzir sua dependência tecnológica crônica.

Essa visão é compartilhada por Cecilia Nicolini, parlamentar do Mercosul, que destaca a necessidade de criar coalizões que transcendam ideologias políticas momentâneas. Segundo ela, a integração exige infraestrutura e políticas de Estado de longo prazo. A ideia é que, ao formar um bloco sólido, os países vizinhos ganhem força para negociar com gigantes globais, exigindo contrapartidas como a transferência de tecnologia.

Na prática, isso muda a lógica do comércio internacional. Ao internalizar a produção de insumos essenciais, como fertilizantes e componentes eletrônicos, os países sul-americanos protegem suas economias contra choques externos e crises geopolíticas, como as que atualmente afetam as cadeias de suprimentos globais.

Por que a soberania mineral virou questão de segurança nacional

O governo brasileiro tem elevado o tom sobre o assunto, tratando os minerais críticos não apenas como mercadoria, mas como um pilar de segurança nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou recentemente que o Brasil não pretende repetir os erros de ciclos econômicos passados, como o do ouro e da madeira, que deixaram pouca herança de desenvolvimento para a população local.

A pressão internacional, no entanto, é forte. Enquanto os Estados Unidos tentam conter a influência chinesa no hemisfério através de coalizões militares e acordos estratégicos, a China continua expandindo seu braço financeiro e técnico na mineração regional. Nesse fogo cruzado, a diretora técnica do Ineep, Ticiana Alvares, alerta que a transferência de tecnologia não virá por cortesia das grandes potências; será necessário impor condições claras de acesso ao mercado.

O futuro da América Latina na economia verde dependerá, portanto, da capacidade de seus governos de agirem em bloco. Se o plano for bem-sucedido, a região deixará de ser um espectador da guerra comercial alheia para se tornar um protagonista da indústria do futuro. O desafio é transformar o potencial geológico em bem-estar social antes que o próximo ciclo tecnológico mude as regras do jogo novamente.

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