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Inflação

Inflação de alimentos no Brasil é impulsionada por fatores estruturais profundos, mostra estudo

01 abr 2026 - 09h21 Joice Gomes
Inflação de alimentos no Brasil é impulsionada por fatores estruturais profundos, mostra estudo Novo estudo da ACT Promoção da Saúde revela causas estruturais da inflação persistente de alimentos no Brasil. (Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Entre junho de 2006 e dezembro de 2025, os preços dos alimentos no Brasil saltaram 302,6%, enquanto o IPCA geral avançou apenas 186,6% no mesmo período. Essa disparidade de 62 pontos percentuais reflete problemas estruturais no sistema agroalimentar brasileiro, e não meros solavancos climáticos ou conjunturais, segundo análise detalhada do economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela Unicamp.

O trabalho, produzido para a ACT Promoção da Saúde em colaboração com a Agência Bori, expõe como frutas, verduras e carnes in natura encareceram bem mais que ultraprocessados, minando o acesso a opções nutritivas e alterando hábitos alimentares das famílias de baixa renda. Com 5% do salário mínimo comprando hoje mais industrializados do que frescos duas décadas atrás, o fenômeno agrava a insegurança alimentar em pleno 2026.

Desequilíbrio entre frescos e processados

Os números impressionam: tubérculos, raízes e legumes acumularam alta de 359,5%; carnes, 483,5%; e frutas, impressionantes 516,2%. O poder de compra para frutas despencou 31%, e para hortaliças, 26,6%, enquanto refrigerantes se valorizaram 23,6% em relação ao IPCA, e itens como presunto e mortadela subiram 69% e 87,2%.

Palmieri Junior atribui o barateamento relativo dos ultraprocessados a fórmulas estáveis de aditivos baratos e cultivos intensivos de commodities como milho, trigo e soja. Essa distorção incentiva o consumo de produtos com baixo valor nutricional, especialmente quando o orçamento familiar aperta, transformando a comida em vetor de desigualdades sociais e de saúde pública.

Agroexportador esmaga o mercado interno

O Brasil evoluiu de exportador modesto, com 24,2 milhões de toneladas em 2006, para gigante com 209,4 milhões em 2025, enquanto importações mal saíram de 14,2 para 17,7 milhões de toneladas. Essa balança superavitária subordina preços domésticos às cotações globais, com produtores optando por soja, milho e cana em vez de arroz, feijão, batata e tomate para o consumo local.

A área dedicada a exportações dobrou, de 41,93 para 79,30 milhões de hectares – maior que a Alemanha inteira –, enquanto cultivos internos minguaram de 10,22 para 6,41 milhões de hectares, área menor que a Paraíba. Em 2025, o agro faturou recorde de US$ 169,2 bilhões em vendas externas, com a China levando 32,7%, mas alta do dólar sempre encarece a comida na mesa do brasileiro.

Cadeia de insumos dominada por cartéis

Fertilizantes explodiram 2.423%, herbicidas 1.870% e colheitadeiras 1.765% nos triênios 2006-2008 versus 2022-2024, números que castigam produtores de todos os portes. Oligopólios estrangeiros controlam 56% das sementes e 61% dos pesticidas globais, quatro empresas respondendo por essa fatia, o que trava quedas de preço mesmo em safras fartas.

Na ponta da indústria, cinco marcas de duas gigantes detêm 74,2% da margarina e 83% dos chocolates. Surge aí a "inflação invisível": embalagens mantêm rótulos, mas receitas trocam ingredientes nobres por genéricos, como menos cacau no chocolate ou leite no sorvete, erosão de qualidade que escapa aos índices oficiais de preço.

Pressões atuais e horizonte turbulento

Após 2,95% de alta em 2025, a inflação alimentar desacelerou para 1,76% em fevereiro de 2026, mas projeções da Conab apontam safra de grãos em 355 milhões de toneladas e menor oferta de carne bovina reacendendo pressões. Analistas veem IPCA em 4,2% para o ano, puxado por comida e serviços, num calendário eleitoral com mínimo acima da inflação.

Diferente dos EUA, onde alimentos subiram só 1,5% acima do índice geral, o Brasil patina num padrão crônico, com aumentos rápidos e recuos teimosos. Eventos climáticos e câmbio volátil só mascaram raízes mais fundas no modelo de desenvolvimento adotado há décadas.

  • Alta de alimentos: 302,6% vs. IPCA 186,6% em 20 anos.
  • Exportações agro 2025: US$ 169,2 bi, 48,5% do total brasileiro.
  • Carnes +483,5%; frutas +516,2%; poder de compra em queda livre.
  • Ultraprocessados acessíveis; frescos, privilégio de renda alta.
  • Insumos: +2.423% em adubos, ciclo repassado ao consumidor.

Propostas para romper o ciclo

O economista propõe desconcentrar a produção, turbinar Conab e Ceasas, facilitar acesso à terra via reforma agrária e condicionar crédito rural ao abastecimento doméstico, mirando exemplos de EUA e Europa. "Preços alimentares revelam escolhas políticas sobre distribuição e sociedade", sentencia Palmieri Junior.

Alimentos acessíveis liberariam renda para indústria e serviços, dinamizando a economia como um todo. Francisco Menezes, ex-presidente do Consea, alerta que hegemonia exportadora drena oferta interna em picos cambiais, citando óleo de soja, café e proteínas. Sem soberania alimentar, desigualdades se perpetuam num país que sustenta 10% da fome global via exportações.

O estudo convoca políticas integradas: incentivos a circuitos curtos de produção-consumo, regulação de cartéis e planejamento de safras para o brasileiro, não só para o exterior. Em 2026, com safra promissora mas preços teimosos, o debate ganha urgência para evitar que a comida continue sendo luxo em nação agrícola.

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