Maratona mundial de games reúne centenas de desenvolvedores no Brasil e em 100 países com o tema “máscara” e impulsiona a economia criativa de jogos.
(Imagem: Global Game Jam Curitiba 2025/Cassiano Rosário)
Uma das maratonas de desenvolvimento mais aguardadas do ano para o universo dos games está de volta: a Global Game Jam Curitiba entra em sua 17ª edição reunindo cerca de 600 participantes em 48 horas de criação intensa de novos jogos. O evento, gratuito e aberto ao público, acontece simultaneamente em mais de 100 países, integrando cerca de 30 mil pessoas em cerca de 800 sedes distribuídas ao redor do mundo. No Brasil, há 30 pontos de realização, entre universidades, empresas e iniciativas independentes.
Segundo Bruno Campagnolo de Paula, coordenador do curso de Jogos Digitais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e principal articulador da etapa paranaense da maratona, a Global Game Jam Curitiba é a maior edição brasileira no formato presencial e uma das mais produtivas do circuito global. Em anos anteriores, o torneio costuma gerar entre 70 e 100 novos games, e a expectativa para 2026 é superar 80 projetos finalizados e disponíveis para play test público.
Como funciona a maratona de games
A estrutura da maratona de games é organizada em equipes multidisciplinares imersas por 48 horas trabalhando na concepção, desenho, programação e testes de novos títulos. Cada grupo mistura profissionais, estudantes e iniciantes que se encontram pela primeira vez ou já possuem experiência consolidada na área. O objetivo principal não é concorrer em uma competição acirrada, e sim experimentar, colaborar e produzir games com metodologia eficiente em curto prazo.
As equipes utilizam diversas tecnologias e plataformas, incluindo PC, dispositivos móveis, realidade virtual e experiências analógicas, como jogos de tabuleiro, livros-jogo, escape rooms físicos e sessões de RPG narrado. Ao final, no domingo, entre 15h e 18h, ocorre a tradicional jogatina, a chamada Play Party, quando participantes e o público em geral experimentam os projetos desenvolvidos.
Tema do ano: máscara e múltiplas leituras
Nesta edição, o tema central que norteia todo o processo de criação é “máscara”, palavra que servirá de impulso conceitual para centenas de narrativas diferentes nos games. Bruno explica que, justamente pela ambiguidade e riqueza simbólica do termo, cada grupo tende a interpretar o tema à sua maneira: ora como disfarce social, ora como identidade oculta, surfando em viés psicológico, político, humorístico ou tecnológico.
A diversidade de leitura de “máscara” acaba refletindo no leque de games produzidos: enquanto desenvolvedores de regiões como o Oriente Médio podem adotar abordagens ligadas à cultura local, participantes da Rússia ou da América Latina seguem outros caminhos criativos. Segundo o coordenador, essa pluralidade estética e temática é o grande trunfo da maratona, pois fortalece a rede mundial de produtores de jogos e expande o repertório de experiências interativas.
Do festival ao mercado de jogos
Os games finalizados na Global Game Jam são publicados em um ambiente global, no site oficial da iniciativa, o que aumenta a visibilidade e abre porta de entrada para o mercado. Bruno Campagnolo destaca que há espaço para que algumas ideias virem produtos comerciais, licenciadas ou vendidas a empresas ligadas à indústria de jogos no Brasil e no exterior.
- Muitas equipes retornam após o evento para lapidar seus games, portando projetos para lojas online, redes de distribuição digital e até dispositivos específicos, ampliando sua chance de monetização.
- Jogos surgidos em jam’s anteriores já foram editados em controles físicos e lançados em plataformas como Steam, App Store, Google Play e serviços de streaming de jogos.
- Alguns times se consolidam ao longo dos meses e decidem transformar a experiência pontual da maratona em uma pequena desenvolvedora ou estúdio independente.
Crescimento da economia criativa em jogos
A dimensão do evento se soma a dados que mostram o crescimento expressivo do mercado de games no Brasil nos últimos anos. Segundo a Pesquisa Game Brasil, entre 2024 e 2025 o consumo de jogos digitais cresceu 8,9% no país, com 82,8% da população afirmando já ter experienciado pelo menos um título de aparelho mobile ou PC.
Para Bruno Campagnolo, a indústria de games hoje é comparável à própria indústria cinematográfica em tamanho econômico, englobando desenvolvimento artístico, tecnológico e de entretenimento. Nesse cenário, iniciativas como a Global Game Jam Curitiba não apenas formam novos perfis profissionais, mas também atuam como termômetro de tendências: desde experiências narrativas mais profundas até experimentações com jogabilidade descontraída e jogos analógicos pensados para multi‑plataforma.
Aprendizado e encontro entre gerações de desenvolvedores
Além da produtividade técnica, o coordenador ressalta o valor pedagógico e emocional da maratona de games. Estudantes de jogos da PUCPR convivem lado a lado com profissionais já consolidados, atuando em diversos níveis de experiência, mas com o mesmo propósito de aprender, ensinar e experimentar. Segundo ele, é comum ver alunos na primeira vez que desenvolvem um jogo trocando ideias com criadores de grande porte do cenário nacional.
Essa interação também permite acompanhar a trajetória de jovens que começaram em edições anteriores da Global Game Jam e hoje figuram entre os principais nomes do setor de games no Brasil. Para Bruno, esse movimento gera um circuito virtuoso de formação, inspiração e expansão contínua da comunidade de desenvolvedores que, por meio de mais de 48 horas concentradas especialmente em ideias, molda o futuro do entretenimento digital.