Tragédias recentes reforçam a importância de contratar apenas empresas registradas no Cadastur e que sigam as normas ISO.
(Imagem: gerado por IA)
A morte trágica de Maria Eduarda Rodrigues, de apenas 21 anos, durante um salto de rope jump em Limeira (SP), não foi apenas uma fatalidade isolada. O episódio acendeu um alerta urgente sobre o abismo que separa as leis rigorosas da realidade prática no turismo de aventura brasileiro, onde a falta de fiscalização pode transformar um momento de lazer em uma armadilha fatal.
Embora existam protocolos claros e certificações internacionais, o mercado ainda convive com um alto índice de informalidade. Na prática, isso significa que muitos operadores priorizam o lucro imediato e o apelo visual das redes sociais em detrimento da manutenção rigorosa de equipamentos e do treinamento de equipes para situações de emergência.
Para o turista, a linha que separa uma empresa profissional de uma aventureira é tênue e, muitas vezes, camuflada por preços atraentes. Mas o impacto vai além do bolso: a ausência de um CNPJ ou de um contrato formal é o primeiro sinal de que a vida de quem contrata o serviço está em segundo plano.
Como identificar o perigo antes do próximo salto
O pilar central da segurança no setor é o Cadastur, o registro oficial de prestadores do Ministério do Turismo. Estar inscrito nele não é opcional, mas uma exigência legal que garante que a empresa possui responsáveis técnicos e respeita normas fiscais básicas. Se uma prestadora não consegue fornecer seu número de registro, o risco já é inaceitável.
Além do cadastro governamental, a referência absoluta de qualidade é a norma ISO 21101. Ela determina que a empresa deve possuir um sistema de gestão de segurança documentado, com checklists rigorosos e planos de contingência reais. De acordo com especialistas, se a equipe não souber explicar o que é essa norma, o sinal de alerta deve ser máximo.
Empresas sérias fazem questão de exibir suas certificações e operar com transparência total. O uso de equipamentos certificados e a presença de seguros específicos elevam o custo da operação, o que explica por que ofertas excessivamente baratas devem ser vistas com profunda desconfiança pelo consumidor.
O que está por trás da ausência de fiscalização
A percepção de que atividades como rapel, tirolesa ou trilhas são "simples" ajudou a criar uma cultura de informalidade no Brasil. Segundo Vinicius Viegas, da Abeta, o setor sofre com uma estrutura de fiscalização deficitária, onde o poder público muitas vezes falha em retirar de circulação operadores que não cumprem os requisitos mínimos.
Enquanto a União estabelece o marco legal, a execução do controle recai sobre os municípios. Cidades como Brotas, referência no setor, já integram a exigência do Cadastur à liberação de alvarás de funcionamento. No entanto, essa integração ainda é a exceção e não a regra na maioria das prefeituras brasileiras, que alegam falta de recursos ou autonomia administrativa.
E é aqui que está o ponto central: sem uma fiscalização ativa nos pontos de salto e nas bases de operação, a segurança fica dependente exclusivamente da consciência do empresário e da perspicácia do cliente. A tragédia em Limeira mostra que o fechamento de acessos e a discussão sobre demolição de estruturas de risco ocorrem, quase sempre, apenas depois que o pior já aconteceu.
O futuro do turismo de aventura no Brasil depende de um esforço conjunto entre a conscientização do público e uma vigilância municipal implacável. A médio prazo, a tendência é que a tecnologia e a pressão por transparência ajudem a filtrar o mercado, mas, até lá, a responsabilidade de checar cada detalhe técnico continua sendo a principal proteção de quem busca adrenalina na natureza.