O país gerou 255.321 empregos com carteira assinada em fevereiro, segundo Ministério do Trabalho.
(Imagem: Marcello Casal JrAgência Brasil)
A reformulação nas regras de concessão de crédito para o setor privado transformou o perfil do endividamento da classe trabalhadora no Brasil. Um ano após o lançamento da modalidade com contratação 100% digital, o comportamento dos tomadores de recursos passou por uma mudança drástica. Um levantamento inédito estruturado pela Serasa Experian revela que o valor médio dos empréstimos recuou 73%, despencando de R$ 8.600 para R$ 2.300. O recuo no tíquete médio, contudo, não significa retração do mercado, mas sim uma pulverização do acesso a microcréditos focados em despesas emergenciais.
De acordo com indicadores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a taxa de juros média aplicada ao crédito consignado privado está estabelecida em 3,2% ao mês. Embora o patamar seja consideravelmente inferior às linhas de financiamento tradicionais, como o cheque especial e o rotativo do cartão, o custo final ainda ultrapassa a barreira de 110% ao ano, exigindo cautela dos poupadores.
Dados do Banco Central (BC) confirmam a explosão no volume macroeconômico liberado: o fluxo mensal saltou de R$ 1,5 bilhão para quase R$ 11 bilhões, elevando o estoque total da modalidade privada para R$ 110 bilhões em março de 2026, contra pouco mais de R$ 41 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior.
Desintermediação bancária e facilidade na contratação digital
O grande catalisador para a expansão do programa foi a desvinculação da necessidade de convênios prévios entre patrões e cooperativas de crédito. O modelo atual permite que trabalhadores sob o regime da CLT, profissionais domésticos, rurais e Microempreendedores Individuais (MEIs) solicitem o dinheiro diretamente pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital:
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Margem Consignável: O limite máximo de desconto em folha de pagamento é rigidamente travado em até 35% da remuneração líquida do trabalhador;
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Competitividade: O número médio de instituições financeiras disputando o cliente dentro de uma mesma empresa subiu de 4 para 21, gerando maior concorrência;
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Volume de Negócios: A concorrência agressiva fez o número de novos contratos saltar de 11 mil para mais de 25 mil na amostragem auditada;
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Prazos Curtos: A preferência por valores menores reduziu o prazo médio de quitação dos contratos em 48%, acelerando a rotação das carteiras de crédito.
Alerta para o superendividamento e perfis de score baixo
Apesar da democratização bancária celebrada por plataformas de gestão de benefícios, os analistas da Serasa Experian acenderam o sinal de alerta para a deterioração dos índices de saúde financeira. O estudo apontou um indicador preocupante: 78% dos cidadãos que recorreram ao novo crédito consignado possuem mais de 81% de sua renda mensal totalmente comprometida com o pagamento de dívidas e parcelamentos diversos. Esse cenário de estrangulamento orçamentário fez a inadimplência específica da modalidade subir de 4,9% para 6,6% entre novembro de 2025 e março deste ano.
O cruzamento de dados estatísticos revelou ainda que a linha de crédito serviu como uma espécie de tábua de salvação para negativados ou pessoas com histórico financeiro instável. Cerca de 86% dos empréstimos foram validados por trabalhadores inseridos nas faixas mais baixas de pontuação de score, ao passo que apenas 21% das operações envolveram proponentes com pontuação de crédito considerada saudável, acima dos 600 pontos.
O panorama insere-se em um contexto macroeconômico severo, onde o Brasil registrou o recorde de 82,8 milhões de inadimplentes em março, afetando 49% da população adulta. Além do cartão de crédito, o atraso no pagamento de tarifas essenciais (água, energia, gás e telefonia) consolidou-se como o segundo maior motivo de restrição comercial, evidenciando que os empréstimos em folha vêm sendo utilizados para cobrir o custeio de necessidades básicas de sobrevivência.