Relatório técnico detalha como golpistas utilizam a identidade de grandes empresas para enganar usuários
(Imagem: Canva)
A engenharia social aplicada ao crime cibernético no Brasil opera sob padrões estruturais repetitivos e altamente sazonais. A segunda edição do relatório técnico A Jornada dos Golpes, elaborado pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, aponta que a combinação entre promessas de ganho financeiro rápido e a exigência de transações via Pix lidera as ocorrências no ambiente virtual. O diagnóstico tomou como amostragem 115 conteúdos enganosos de grande circulação nacional, revelando que um terço das investidas criminosas adota o sistema de pagamento instantâneo do Banco Central como única forma de arrecadação.
Os dados coletados indicam que 71% dos materiais analisados oferecem algum tipo de recompensa monetária ilusória. Para induzir o internauta ao erro, em 74% dos casos, as organizações criminosas se apropriam indevidamente da identidade visual, logotipos e reputação mercadológica de grandes corporações ou de figuras públicas notórias. Essa tática confere uma falsa camada de legitimidade ao processo, camuflando o teor ilícito das abordagens na internet.
Reutilização de narrativas e adulteração de notícias reais
De acordo com as análises técnicas do relatório, os criminosos não demandam o desenvolvimento de novas tecnologias ou roteiros inéditos para perpetuar as infrações. A metodologia criminosa consiste na reciclagem de mecânicas de engajamento que já obtiveram êxito em períodos anteriores. Campanhas falsas de brindes, promessas de emprego com remuneração acima da média de mercado, falsos mutirões de renegociação de dívidas e liberações fictícias de benefícios governamentais são atualizados constantemente de acordo com o calendário de feriados ou os temas que dominam os veículos de comunicação.
A pesquisadora responsável pelo levantamento, Beatriz Farrugia, esclarece que a engenharia das fraudes digitais se sustenta na distorção de cenários verídicos. O levantamento estatístico provou essa tendência:
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Manipulação de Fatos: Em 66% das ocorrências avaliadas, os infratores utilizaram trechos de reportagens jornalísticas reais, comunicados institucionais autênticos ou decisões do Poder Judiciário para fundamentar a mentira;
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Uso Indevido de Marcas: Mais de 15 marcas de grande porte dos setores de varejo, bancário e tecnologia foram clonadas. Plataformas como Mercado Livre, Nubank, Shopee, Serasa e Rede Globo lideraram o volume de menções falsas;
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Aumento do Índice: A adulteração de materiais verídicos saltou de 55% na edição anterior da pesquisa para os atuais 66%, dificultando a identificação imediata do engano por parte do usuário comum.
O fluxo de atração nas redes e a monetização das plataformas
O mapeamento do percurso do golpe evidencia que a captação inicial das vítimas ocorre predominantemente em redes sociais de amplo alcance e feeds abertos, como Facebook, Instagram e TikTok, muitas vezes por meio de links patrocinados. Após o clique inicial, o usuário é direcionado para páginas externas que simulam portais oficiais de atendimento, onde ocorre o preenchimento de formulários para a captura de dados cadastrais sensíveis.
O aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp consolidou-se como a principal ferramenta de compartilhamento e distribuição orgânica de links nocivos, estando presente em 65% dos casos auditados. Dentro desse ecossistema fechado, os golpistas exigem a transferência de valores via Pix sob o pretexto de quitação de taxas cartoriais ou impostos de liberação para prêmios inexistentes.
O estudo do Observatório Lupa também trouxe ao debate público a responsabilidade das Big Techs no controle de anúncios veiculados em suas interfaces. Relatórios de transparência indicam o forte impacto financeiro decorrente da comercialização de espaços publicitários sem a devida filtragem prévia de antecedentes. Especialistas e pesquisadores defendem que o enfrentamento eficaz às fraudes digitais exige uma cooperação mútua que integre de forma coordenada as empresas de tecnologia, o sistema financeiro nacional, os órgãos de defesa do consumidor e o policiamento cibernético, permitindo a identificação precoce das táticas de monetização que sustentam o crime na web.