Artesã indígena relata dificuldade para encontrar penas devido ao desmatamento
(Imagem: Valter Campanato Agência Brasil)
O avanço do desmatamento no Brasil tem provocado impactos diretos na cultura dos povos tradicionais. Artesãos indígenas relatam que a diminuição de aves está dificultando a produção de cocares indígenas, peças simbólicas feitas a partir de penas naturais.
Durante o Acampamento Terra Livre, realizado em Brasília, lideranças alertaram para a redução significativa de pássaros em seus territórios, consequência de queimadas, uso de agrotóxicos e invasões ilegais.
Menos aves, mais dificuldade para produção
O artesão Tapurumã Pataxó, de 32 anos, afirma que aprendeu a confeccionar cocares ainda na infância, mas hoje enfrenta escassez de matéria-prima.
Segundo ele, espécies como araras e maritacas estão cada vez mais raras. A produção dos cocares utiliza apenas penas que caem naturalmente das aves, o que torna a escassez ainda mais preocupante.
Em comunidades como a Aldeia Barra Velha, no sul da Bahia, iniciativas ambientais tentam reverter o cenário, promovendo a preservação e reintrodução de aves no ecossistema.
Impactos do desmatamento e mudanças climáticas
Outros artesãos também relatam dificuldades. A artesã Ahnã Pataxó conta que, em alguns casos, é preciso recorrer a zoológicos para obter penas, diante da escassez na natureza.
Além do desmatamento, as mudanças climáticas também alteram o comportamento das aves, afetando sua presença em determinadas regiões. Espécies como gavião real, papagaio e caracará estão entre as mais impactadas.
Trocas entre comunidades ajudam a manter tradição
Durante encontros indígenas, como o realizado em Brasília, os artesãos aproveitam para trocar materiais entre si. Isso ocorre porque cada região possui diferentes espécies de aves, algumas mais resistentes às mudanças ambientais.
Essa colaboração tem sido essencial para manter viva a produção dos cocares indígenas, mesmo diante das dificuldades.
Símbolo cultural exige respeito
Mais do que um item artesanal, o cocar representa identidade, proteção e resistência para diversos povos indígenas. Em algumas tradições, ele também simboliza união, sendo utilizado em cerimônias como casamentos.
Lideranças reforçam que o uso do cocar por não indígenas deve ser respeitoso, evitando a utilização inadequada em festas ou eventos que não valorizem seu significado cultural.
A preservação ambiental, segundo os artesãos, é fundamental não apenas para manter a biodiversidade, mas também para garantir a continuidade de tradições ancestrais que fazem parte da história do Brasil.