A Igreja de São João Batista, na Fazenda Araripe, onde a tradição iniciada por Mestre Januário permanece viva em 2026.
(Imagem: gerado por IA)
A exatamente 619 quilômetros dos megapalcos de Recife, a cidade de Exu, no Sertão de Pernambuco, protege um segredo que o tempo não conseguiu apagar: o berço espiritual e rítmico do São João brasileiro. Enquanto as capitais investem em produções monumentais, a terra de Luiz Gonzaga prefere o estalar das fogueiras nos quintais e a devoção silenciosa nas capelas rurais.
O epicentro dessa resistência cultural é a Fazenda Araripe, local onde o Rei do Baião cresceu e onde a igreja de São João Batista permanece como um símbolo de fé inabalável. Para os moradores, a festa não é apenas um evento sazonal, mas uma conexão profunda com as raízes deixadas por Mestre Januário, o pai de Gonzaga, que fundiu a religiosidade com o som da sanfona.
Na prática, isso muda mais do que parece. Em Exu, o ciclo junino começa com o novenário no dia 14 de junho, unindo o sagrado ao profano de maneira quase indissociável. A pesquisadora Maria Carlina Alencar, residente do vilarejo desde a infância, explica que a música que o mundo conhece hoje como "clássico junino" tem seu DNA guardado nessas pequenas celebrações familiares.
A raiz sonora que moldou a estética do Nordeste
As pesquisas locais sugerem que elementos fundamentais do São João moderno, como a combinação de zabumba, triângulo e sanfona, podem ter sido gestados no Araripe. Mestre Januário, um virtuoso da sanfona de oito baixos, transformava os antigos "sambas de latada" em rituais que atraíam toda a região, influenciando diretamente a formação artística de seu filho mais ilustre.
O próprio Luiz Gonzaga, no auge da carreira, admitia que suas composições eram intuições enviadas por São João Batista. Essa ligação era tão forte que a tradição da fogueira era tratada como um rito sagrado. Januário não permitia que ninguém acendesse sua fogueira de dois metros de altura; ele mesmo o fazia, sentando-se ao lado para rezar e observar as brasas que, segundo o costume, abençoavam o primeiro café da manhã seguinte.
Mas o impacto vai além da nostalgia familiar. A preservação desses costumes tornou-se um ato de resistência política e cultural em um mercado musical cada vez mais homogêneo. Hoje, a manutenção desse legado enfrenta desafios modernos, especialmente no que diz respeito à sobrevivência dos instrumentos tradicionais e dos espaços de apresentação para o forró pé-de-serra original.
O dilema entre a tradição e o mercado atual
Joquinha Gonzaga, sobrinho do Rei do Baião, alerta para o risco de extinção da sanfona de oito baixos, o símbolo máximo da família. Segundo ele, o instrumento está desaparecendo das festas de grande porte, sendo substituído por vertentes pop que descaracterizam a essência do São João. Daniel Gonzaga, neto do mestre, corrobora essa preocupação ao notar que a ocupação de espaços por gêneros distantes do forró não é orgânica, mas moldada por interesses comerciais.
Apesar dessa pressão externa, Exu mantém sua autenticidade através do turismo de base comunitária. A Secretaria de Cultura e Turismo do município tem focado em oferecer imersões onde o visitante pode vivenciar o manejo do couro, o bordado e a culinária típica em sítios e povoados. É uma tentativa de perpetuar o "São João raiz", onde a festa acontece na rua, de forma popular e sem filtros mercadológicos.
E é aqui que está o ponto central: para o povo de Exu, o maior festival do ano não acontece necessariamente em junho. O "Festival Viva Gonzagão", realizado em dezembro para celebrar o nascimento do Rei do Baião, é o momento em que a cidade realmente transborda. Para a população local, esse evento é uma amálgama de São João, Carnaval e Natal, reunindo grandes nomes da música brasileira para honrar o legado do Araripe.
A sobrevivência dessa cultura, portanto, não depende de grandes investimentos em infraestrutura urbana, mas da continuidade das preces ao redor da fogueira e da insistência em manter a sanfona no peito. Enquanto houver um tocador de oito baixos no Araripe, o São João de Luiz Gonzaga continuará pulsando, lembrando ao Brasil que a alma de uma festa não se compra, se herda.