Moradora Cláudia da Costa observa obras de saneamento em frente à sua residência na Maré. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
(Imagem: gerado por IA)
A marca de lama que chega a um metro de altura na parede da casa de Cláudia da Costa Tavares da Silva não é apenas uma mancha de sujeira; é a cicatriz de uma rotina de medo que atinge 200 mil pessoas no Complexo da Maré. Em dias de tempestade, a moradora de 63 anos trava uma corrida desesperada contra o relógio para proteger sua mãe, uma idosa de 86 anos com Alzheimer, enquanto a água contaminada do esgoto invade os cômodos, destruindo móveis e trazendo riscos à saúde.
O drama de Cláudia sintetiza o desafio histórico do saneamento básico na zona norte do Rio de Janeiro. Embora o complexo de 16 favelas esteja finalmente recebendo uma intervenção robusta na rede de esgotamento sanitário, o cenário de casas alagadas e ruas submersas persiste como uma ameaça real. Na prática, isso muda mais do que parece, mas a solução definitiva ainda esbarra em problemas estruturais que vão além da competência de uma única empresa.
A obstrução de bueiros e o despejo irregular de resíduos sólidos nas galerias pluviais criam um gargalo onde a água da chuva simplesmente não tem para onde ir. Sem um sistema de drenagem eficiente e uma coleta de lixo rigorosa, a nova rede de esgoto corre o risco de ser um alento em um mar de problemas persistentes.
O que muda na prática com o novo projeto de saneamento
Para tentar reverter esse quadro, a concessionária Águas do Rio anunciou um plano de investimento de R$ 120 milhões voltado para a Maré. O projeto é ambicioso: a instalação de 18 quilômetros de novas tubulações e a construção de um duto de 1,5 metro de diâmetro sob a via principal da comunidade. O objetivo central é separar o esgoto doméstico das águas da chuva, desviando os dejetos diretamente para a Estação de Tratamento Alegria.
Atualmente, a maioria das residências está conectada de forma improvisada às galerias pluviais, o que satura o sistema e contamina os canais que deságuam na Baía de Guanabara. Com as obras, que contam com recursos do BNDES e de agências internacionais como o BID e a Proparco, espera-se que o despejo de milhares de litros de esgoto in natura seja interrompido, mitigando o mau cheiro e a proliferação de doenças.
No entanto, o impacto vai além da engenharia. A concessionária optou por utilizar mão de obra local para as intervenções em becos e vielas, uma estratégia que facilita o acesso a áreas sensíveis e gera empregos diretos para quem vive no território. É uma tentativa de humanizar o serviço técnico em um ambiente onde a infraestrutura sempre foi negligenciada.
O impasse das contas e o temor de cobranças abusivas
Mas o avanço tecnológico e estrutural trouxe consigo um novo ponto de tensão: a chegada das contas de água e esgoto. Pela primeira vez em décadas, os moradores estão sendo tarifados após a privatização da Cedae em 2021. O impacto no orçamento familiar já começou a gerar protestos. Em março, faturas que ultrapassavam R$ 1.100 chegaram a residências que deveriam estar enquadradas na tarifa social de apenas R$ 5 durante o primeiro ano de obras.
E é aqui que está o ponto central da discussão social. A professora Ana Lucia de Britto, da UFRJ, alerta para o risco de mecanismos de formação de caixa das empresas privadas penalizarem a população mais pobre com taxas de religação e juros altos. Para os moradores, a aceitação do novo serviço está condicionada a uma cobrança justa e, principalmente, ao fim dos alagamentos.
Enquanto as obras avançam, o Complexo da Maré permanece em um estado de vigília. A expectativa é que as intervenções, previstas para durar dois anos, sejam o primeiro passo de um processo maior que inclua a prefeitura na solução da drenagem e do lixo. Afinal, sem um olhar integrado sobre o território, as marcas nas paredes de Cláudia e de milhares de outros moradores continuarão sendo redesenhadas a cada verão.