Queda de tráfego provocada por resumos gerados por Inteligência Artificial ameaça o financiamento da imprensa profissional.
(Imagem: gerado por IA)
Um em cada quatro portais de notícias digitais no Brasil perdeu mais de 20% de sua audiência em 2025, um golpe severo provocado diretamente pelo avanço da inteligência artificial nas ferramentas de busca. Ao exibir resumos automatizados prontos, as plataformas impedem que o leitor clique nos links originais, secando a principal fonte de receita que financia o jornalismo profissional.
Essa mudança silenciosa no comportamento de consumo de informação ganhou força com a consolidação de recursos como o AI Overviews do Google. Na prática, isso muda mais do que parece: a entrega de respostas prontas retém o usuário dentro do buscador, privando as redações do tráfego necessário para atrair anunciantes e manter repórteres nas ruas.
Sem cliques, o modelo de negócios que sustenta a imprensa livre começa a ruir de forma acelerada, criando um deserto de notícias propício para a proliferação de desinformação.
O que muda na prática para a sustentabilidade da mídia
O reflexo financeiro dessa perda de tráfego já é sentido no bolso e nas estruturas das empresas de mídia. Segundo a Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que representa 152 veículos on-line no país, a queda nas métricas de audiência compromete diretamente a captação de publicidade programática.
O impacto não é exclusivo do Brasil. Em maio de 2025, o veículo norte-americano Business Insider demitiu 21% de sua força de trabalho, justificando a reestruturação justamente pela queda abrupta no tráfego gerada pelos resumos de inteligência artificial.
Além da crise financeira, há um risco grave para a qualidade da informação. Os resumos gerados por algoritmos frequentemente entregam dados descontextualizados e, em casos extremos, reproduzem trechos literais de reportagens sem a devida atribuição, o que configura plágio.
Por que a regulação da IA está travada no Congresso
A principal esperança de reequilíbrio está no Projeto de Lei 2338 de 2023, o Marco Regulatório da Inteligência Artificial. O texto, que prevê a remuneração obrigatória de direitos autorais e jornalísticos pelas plataformas de tecnologia, segue estagnado na Câmara dos Deputados após ser aprovado pelo Senado.
O impasse político decorre de um forte lobby das gigantes de tecnologia (as chamadas big techs), que pressionam para retirar as cláusulas de propriedade intelectual do texto. Entidades como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) apontam que as empresas de tecnologia alegam que a lei inviabilizaria o desenvolvimento de modelos locais de IA.
Embora o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tenha priorizado o projeto no primeiro semestre, a votação foi empurrada para após o período eleitoral sob a justificativa de debater melhor a operacionalidade dos pagamentos. Enquanto isso, o Ministério da Cultura adverte que o uso não autorizado de textos jornalísticos para treinar algoritmos já viola a legislação de direitos autorais em vigor.
O que pode acontecer a partir de agora
Diante da paralisia legislativa, o mercado começou a se movimentar por conta própria através de vias judiciais e de concorrência. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu um inquérito para investigar se o Google abusa de sua posição dominante ao usar conteúdos jornalísticos em suas ferramentas de IA sem qualquer contrapartida financeira.
Paralelamente, grandes veículos nacionais, como a Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, optaram por fechar acordos de licenciamento privados com a OpenAI e o Google. Essa fragmentação cria um cenário desigual, onde apenas os grandes veículos conseguem negociar compensações, deixando os veículos locais e independentes em uma situação ainda mais vulnerável.
O desfecho dessa queda de braço definirá não apenas o futuro das redações, mas a própria qualidade democrática do país. Se o avanço tecnológico continuar a asfixiar a produção de notícias verificadas, a sociedade corre o risco de ser alimentada apenas por sínteses automatizadas desprovidas de investigação jornalística real.