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SAÚDE MENTAL

Burnout cresce no Brasil e afastamentos por saúde mental batem recorde

Afastamentos associados ao burnout cresceram de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025. Brasil também registrou mais de 546 mil benefícios por transtornos mentais no último ano.

14 set 2026 - 08h53 Joice Gomes
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Burnout cresce no Brasil e afastamentos por saúde mental batem recorde Representação editorial de esgotamento profissional e dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho. (Imagem: gerado por IA)

O avanço dos afastamentos por problemas de saúde mental no Brasil acendeu um alerta sobre as condições de trabalho e o crescimento do burnout. Dados previdenciários analisados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) mostram que os registros associados à síndrome passaram de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025, quase quatro vezes mais em apenas dois anos.

O problema faz parte de um cenário mais amplo. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, volume 15% superior ao registrado em 2024 e o maior da série recente.

Os números incluem quadros como depressão, ansiedade, estresse grave e outros transtornos. O burnout aparece como um fenômeno diretamente relacionado ao contexto ocupacional e ganhou maior visibilidade à medida que empresas, profissionais de saúde e órgãos públicos passaram a reconhecer melhor os fatores psicossociais envolvidos.

O que é burnout

A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui o burnout na Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi administrado de forma adequada.

A definição da OMS considera três dimensões principais: sensação de esgotamento ou falta de energia, aumento do distanciamento mental em relação ao trabalho ou sentimentos de negativismo e cinismo, e redução da eficácia profissional.

O conceito deve ser aplicado especificamente ao contexto de trabalho e não a situações de cansaço ou estresse em outras áreas da vida.

Por que os afastamentos aumentaram

Especialistas apontam que não existe uma única causa para o crescimento. Entre os fatores associados estão jornadas prolongadas, metas excessivas, pressão constante, baixa autonomia, conflitos, assédio, sobrecarga, insegurança no emprego e dificuldade de separar trabalho e vida pessoal.

A digitalização também ampliou a conectividade fora do expediente. Mensagens, reuniões e demandas em horários antes reservados ao descanso podem reduzir a recuperação física e mental, especialmente quando se tornam rotina.

Ao mesmo tempo, houve avanço no reconhecimento e no diagnóstico dos transtornos relacionados ao trabalho, o que também pode contribuir para o aumento das notificações e dos afastamentos registrados.

Depressão e ansiedade lideram benefícios

Embora o burnout tenha apresentado forte crescimento percentual, os transtornos depressivos continuam respondendo pelo maior número de benefícios previdenciários ligados à saúde mental.

Em 2025, episódios depressivos somaram mais de 122 mil afastamentos e o transtorno depressivo recorrente respondeu por mais de 60 mil casos, segundo levantamento da Anamt com dados do INSS.

Esses números mostram que o sofrimento mental no trabalho não se resume ao burnout e exige abordagem mais ampla de prevenção, acompanhamento e acesso a tratamento.

NR-1 passou a incluir riscos psicossociais

Desde 26 de maio de 2026, a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) exige que o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais considere também fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.

Na prática, as empresas precisam avaliar aspectos da organização do trabalho que podem prejudicar a saúde mental, identificar riscos e implementar medidas de prevenção dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos.

O Ministério do Trabalho e Emprego e a Fundacentro publicaram orientações para apoiar empresas e profissionais de segurança e saúde na aplicação das novas regras.

Prevenção não depende apenas do trabalhador

Uma das principais mudanças de abordagem é reconhecer que saúde mental no trabalho não pode ser tratada apenas como responsabilidade individual. Técnicas de relaxamento, atividade física e organização pessoal podem ajudar, mas não substituem mudanças quando a origem do problema está em metas inviáveis, jornadas excessivas, assédio ou falta de recursos.

Medidas preventivas podem incluir dimensionamento adequado de equipes, definição clara de funções, respeito a períodos de descanso, canais seguros para denúncia de assédio, participação dos trabalhadores nas decisões e acompanhamento dos indicadores de saúde.

Sinais que merecem atenção

Cansaço persistente, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono, perda de motivação, cinismo em relação ao trabalho e queda de desempenho podem indicar sofrimento ocupacional e merecem avaliação quando se tornam intensos ou duradouros.

Esses sintomas também podem ocorrer em outras condições de saúde mental ou física. Por isso, não é recomendado fazer autodiagnóstico. A avaliação profissional é importante para diferenciar burnout de depressão, ansiedade, distúrbios do sono e outros problemas.

Quando procurar ajuda

Quem percebe prejuízo importante no trabalho, nas relações pessoais ou no funcionamento diário deve buscar atendimento de saúde. O SUS oferece serviços na atenção primária e na Rede de Atenção Psicossocial, com encaminhamento conforme a necessidade.

Em situações de sofrimento intenso, crise ou risco de autoagressão, a procura por atendimento deve ser imediata. Serviços de urgência e emergência podem ser acionados quando necessário.

O crescimento dos afastamentos reforça que saúde mental passou a ocupar espaço central nas políticas de trabalho. O desafio agora é transformar o aumento do diagnóstico em prevenção efetiva, reduzindo ambientes que produzem adoecimento e garantindo apoio a quem já apresenta sinais de esgotamento.

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