Representação editorial de esgotamento profissional e dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
(Imagem: gerado por IA)
O avanço dos afastamentos por problemas de saúde mental no Brasil acendeu um alerta sobre as condições de trabalho e o crescimento do burnout. Dados previdenciários analisados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) mostram que os registros associados à síndrome passaram de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025, quase quatro vezes mais em apenas dois anos.
O problema faz parte de um cenário mais amplo. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, volume 15% superior ao registrado em 2024 e o maior da série recente.
Os números incluem quadros como depressão, ansiedade, estresse grave e outros transtornos. O burnout aparece como um fenômeno diretamente relacionado ao contexto ocupacional e ganhou maior visibilidade à medida que empresas, profissionais de saúde e órgãos públicos passaram a reconhecer melhor os fatores psicossociais envolvidos.
O que é burnout
A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui o burnout na Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi administrado de forma adequada.
A definição da OMS considera três dimensões principais: sensação de esgotamento ou falta de energia, aumento do distanciamento mental em relação ao trabalho ou sentimentos de negativismo e cinismo, e redução da eficácia profissional.
O conceito deve ser aplicado especificamente ao contexto de trabalho e não a situações de cansaço ou estresse em outras áreas da vida.
Por que os afastamentos aumentaram
Especialistas apontam que não existe uma única causa para o crescimento. Entre os fatores associados estão jornadas prolongadas, metas excessivas, pressão constante, baixa autonomia, conflitos, assédio, sobrecarga, insegurança no emprego e dificuldade de separar trabalho e vida pessoal.
A digitalização também ampliou a conectividade fora do expediente. Mensagens, reuniões e demandas em horários antes reservados ao descanso podem reduzir a recuperação física e mental, especialmente quando se tornam rotina.
Ao mesmo tempo, houve avanço no reconhecimento e no diagnóstico dos transtornos relacionados ao trabalho, o que também pode contribuir para o aumento das notificações e dos afastamentos registrados.
Depressão e ansiedade lideram benefícios
Embora o burnout tenha apresentado forte crescimento percentual, os transtornos depressivos continuam respondendo pelo maior número de benefícios previdenciários ligados à saúde mental.
Em 2025, episódios depressivos somaram mais de 122 mil afastamentos e o transtorno depressivo recorrente respondeu por mais de 60 mil casos, segundo levantamento da Anamt com dados do INSS.
Esses números mostram que o sofrimento mental no trabalho não se resume ao burnout e exige abordagem mais ampla de prevenção, acompanhamento e acesso a tratamento.
NR-1 passou a incluir riscos psicossociais
Desde 26 de maio de 2026, a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) exige que o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais considere também fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.
Na prática, as empresas precisam avaliar aspectos da organização do trabalho que podem prejudicar a saúde mental, identificar riscos e implementar medidas de prevenção dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos.
O Ministério do Trabalho e Emprego e a Fundacentro publicaram orientações para apoiar empresas e profissionais de segurança e saúde na aplicação das novas regras.
Prevenção não depende apenas do trabalhador
Uma das principais mudanças de abordagem é reconhecer que saúde mental no trabalho não pode ser tratada apenas como responsabilidade individual. Técnicas de relaxamento, atividade física e organização pessoal podem ajudar, mas não substituem mudanças quando a origem do problema está em metas inviáveis, jornadas excessivas, assédio ou falta de recursos.
Medidas preventivas podem incluir dimensionamento adequado de equipes, definição clara de funções, respeito a períodos de descanso, canais seguros para denúncia de assédio, participação dos trabalhadores nas decisões e acompanhamento dos indicadores de saúde.
Sinais que merecem atenção
Cansaço persistente, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono, perda de motivação, cinismo em relação ao trabalho e queda de desempenho podem indicar sofrimento ocupacional e merecem avaliação quando se tornam intensos ou duradouros.
Esses sintomas também podem ocorrer em outras condições de saúde mental ou física. Por isso, não é recomendado fazer autodiagnóstico. A avaliação profissional é importante para diferenciar burnout de depressão, ansiedade, distúrbios do sono e outros problemas.
Quando procurar ajuda
Quem percebe prejuízo importante no trabalho, nas relações pessoais ou no funcionamento diário deve buscar atendimento de saúde. O SUS oferece serviços na atenção primária e na Rede de Atenção Psicossocial, com encaminhamento conforme a necessidade.
Em situações de sofrimento intenso, crise ou risco de autoagressão, a procura por atendimento deve ser imediata. Serviços de urgência e emergência podem ser acionados quando necessário.
O crescimento dos afastamentos reforça que saúde mental passou a ocupar espaço central nas políticas de trabalho. O desafio agora é transformar o aumento do diagnóstico em prevenção efetiva, reduzindo ambientes que produzem adoecimento e garantindo apoio a quem já apresenta sinais de esgotamento.