Acolhimento humanizado em hospitais é crucial para reduzir a taxa de recusa de doação de órgãos no Brasil.
(Imagem: gerado por IA)
No doloroso momento de se despedir de um ente querido, milhares de famílias brasileiras enfrentam um dilema silencioso dentro dos hospitais: autorizar ou não a doação de órgãos para salvar vidas desconhecidas. No entanto, por trás da decisão de dizer "não", que atinge a assustadora média de 45% de recusa no país, esconde-se uma realidade que vai muito além de questões religiosas ou pessoais.
Na prática, a forma como os hospitais acolhem essas famílias nos momentos mais difíceis da vida é o verdadeiro divisor de águas entre um transplante bem-sucedido e uma oportunidade perdida.
Muitas vezes, a resistência não nasce de uma negação à solidariedade, mas sim de falhas graves de comunicação dentro do ambiente hospitalar, onde jargões incompreensíveis e abordagens frias acabam por afastar quem já está vulnerável.
O que está por trás da recusa familiar
De acordo com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), grande parte dos brasileiros manifesta ou teria o desejo de doar, mas o processo falha exatamente na abordagem. O presidente da AMIB, Cristiano Franke, destaca que a falta de preparo das equipes para lidar com conversas difíceis e a realização de conversas cruciais em locais inadequados geram desconfiança.
Além disso, persistem medos práticos sobre a integridade física do corpo após o procedimento. Para mitigar esse receio, os profissionais precisam de tempo e sensibilidade para explicar detalhadamente que a cirurgia de captação de órgãos preserva totalmente a aparência do falecido para os ritos fúnebres.
O que muda na prática com os novos treinamentos
Para tentar reverter esse cenário alarmante, uma mobilização de grande escala entre a AMIB e o Ministério da Saúde capacitou 2.534 profissionais de saúde em todo o país. O foco foi qualificar desde a identificação de potenciais doadores até o uso de técnicas de Comunicação em Situações Críticas (CSC).
Esse treinamento prepara médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais para traduzirem termos técnicos em empatia. No total, foram dezenas de cursos práticos espalhados por 25 estados brasileiros, com novas etapas previstas para ocorrer no Ceará e em Santa Catarina.
O que pode acontecer a partir disso
Em 2025, o Brasil registrou 15.940 potenciais doadores, mas apenas 4.335 se tornaram doadores efetivos. Com mais de 4,2 mil recusas familiares registradas no mesmo período, a ampliação de profissionais capacitados na linha de frente surge como o principal caminho para aumentar a taxa de conversão nacional.
O país alcançou a marca de 20,3 doadores efetivos por milhão de habitantes em 2025 — uma leve melhora em relação ao ano anterior. Contudo, a superação desse patamar depende diretamente de humanizar o atendimento hospitalar no momento mais agudo da dor humana.