Acidentes com quedas e queimaduras representam a maioria das internações de menores no Brasil
(Imagem: gerado por IA)
A cada hora, pelo menos 14 crianças e adolescentes de até 14 anos são hospitalizados no Brasil devido a acidentes que, em sua esmagadora maioria, poderiam ser prevenidos. Em 2025, essa triste realidade atingiu a marca de 128,5 mil internações mapeadas no país, evidenciando uma vulnerabilidade alarmante dentro do próprio lar.
No topo da lista de causas para a internação de crianças estão as quedas e as queimaduras, que juntas representam mais de 60% de todas as ocorrências graves registradas nessa faixa etária. O cenário ganha contornos ainda mais preocupantes com uma tendência de alta no triênio recente, impulsionada por fatores comportamentais modernos.
Os dados, extraídos do DataSUS e detalhados pelo Projeto Criança Segura, da ONG Aldeias Infantis SOS, revelam que as quedas lideraram isoladas, com mais de 55 mil casos (43,4%), seguidas pelas queimaduras, com 25 mil registros (19,6%). Especialistas apontam que a desatenção provocada pelo uso excessivo de telas por parte dos cuidadores tem correlação direta com esse avanço.
O que está por trás do aumento de acidentes domésticos
Na prática, o ambiente doméstico, que deveria ser sinônimo de proteção, tem se mostrado o local de maior risco para os pequenos. De 2023 a 2025, o número total de hospitalizações de menores de 14 anos subiu 7,7%, saltando de forma contínua ano após ano: houve alta de 2,2% em 2024 e uma aceleração de 5,4% em 2025.
Mas o impacto vai além dos números absolutos. O que mais chama a atenção de médicos e sanitaristas é o avanço vertiginoso de categorias específicas. As internações por intoxicação dispararam quase 20% no último período, enquanto os casos de sufocação cresceram 10,8% e os de queimaduras subiram 7,4%.
De acordo com o relatório, a raiz desse problema está diretamente ligada à vigilância ativa. A onipresença dos smartphones na rotina dos adultos tem criado janelas de distração cruciais, segundos em que um bebê engatinha em direção a uma tomada ou puxa o cabo de uma panela com água fervente.
Como isso afeta os estados e regiões do país
Embora os estados mais populosos liderem em volume absoluto — com São Paulo registrando quase 20 mil casos, seguido por Minas Gerais (12,1 mil) e Paraná (10,7 mil) —, a taxa proporcional por habitante revela distorções regionais profundas.
Quando os dados são calculados para cada grupo de 100 mil habitantes, a liderança passa a ser do Pará, com uma taxa dramática de 120 internações. Logo atrás aparecem Tocantins (113) e Maranhão (102). No extremo oposto, estados como Sergipe registram apenas 13 ocorrências por 100 mil pessoas.
E é aqui que está o ponto central: a disparidade regional muitas vezes reflete a falta de acesso a informações preventivas e de infraestrutura segura nas residências, além de desafios no atendimento primário de saúde que poderiam evitar que um acidente leve evolua para uma internação.
Outros perigos invisíveis no cotidiano das crianças
O estudo mostra que, depois das quedas e queimaduras, o trânsito se consolida como a terceira maior ameaça, respondendo por 12,6 mil internações. Essa categoria atinge prioritariamente os mais velhos, concentrando metade das ocorrências na faixa dos 10 aos 14 anos, período em que os jovens começam a transitar sozinhos pelas ruas.
Já os acidentes por afogamento, embora menos frequentes em números totais (261 casos), carregam uma letalidade altíssima e acontecem quase que totalmente (71,6%) com bebês e crianças de 1 a 4 anos. A mesma faixa etária é a principal vítima de sufocações com pequenos objetos e alimentos.
A única estatística que apresentou retração foi a de internações provocadas por armas de fogo, que registrou uma queda de 13,6%. No entanto, os números globais de acidentes domésticos continuam em escalada, exigindo uma mudança urgente de postura social.
Diante desse panorama, o alerta dos especialistas é definitivo: mais de 90% dessas hospitalizações seriam evitadas com medidas simples de segurança, como uso de portões em escadas, protetores de tomadas e, principalmente, a supervisão atenta e ininterrupta dos adultos. O futuro da integridade física dos pequenos depende, fundamentalmente, de desconectarmos das telas para nos reconectarmos com o cuidado em tempo real.