Polícia Civil e operadoras de saúde investigam desvios milionários em terapias para TEA.
(Imagem: gerado por IA)
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou uma grande ofensiva para desmantelar um esquema criminoso que utilizava o diagnóstico de autismo como fachada para desviar milhões de reais de operadoras de saúde suplementar.
A chamada Operação Descredenciamento expôs como clínicas credenciadas simulavam atendimentos terapêuticos e inflavam cargas horárias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), gerando prejuízos estimados em R$ 60 milhões.
Na prática, o impacto dessas fraudes vai muito além do rombo financeiro nas operadoras. O esquema revela uma alarmante vulnerabilidade na fiscalização e coloca famílias em uma posição extrema de risco e vulnerabilidade.
O que está por trás do superfaturamento milionário
As investigações conduzidas pela Deic revelaram que pelo menos nove clínicas credenciadas em São Paulo utilizavam um método audacioso: criavam laudos falsos de TEA apenas para justificar o início de tratamentos e cobrar por sessões que nunca ocorreram.
Auditorias internas de operadoras como NotreDame Intermédica e Hapvida descobriram disparidades chocantes. Havia registros de consultas ativas e faturadas enquanto as crianças estavam, comprovadamente, em suas casas, na escola ou até mesmo internadas em hospitais.
Para se ter uma ideia do nível de abuso, algumas clínicas cobravam até R$ 200 mil mensais por um único paciente. Em alguns relatórios entregues às operadoras, constava que crianças passavam por até 18 horas diárias de terapia, uma rotina clinicamente impossível e exaustiva para qualquer paciente infantil.
Como isso afeta as famílias e os planos na prática
De acordo com a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), essas práticas comprometem recursos vitais que deveriam garantir o funcionamento de todo o sistema de saúde suplementar. Quando uma fraude desse tamanho prospera, o custo operacional sobe, o que acaba encarecendo as mensalidades para todos os beneficiários.
Mas o lado mais sombrio da fraude recai sobre os pais das crianças. Muitos deles relataram ter sido coagidos pelas clínicas a assinar folhas de presença em branco ou relatórios com informações falsas.
Nesse cenário de manipulação, as famílias acabavam atuando como inocentes úteis. A necessidade urgente por tratamento especializado tornava os responsáveis vulneráveis à pressão dos proprietários das clínicas, que se aproveitavam da boa-fé dos pais para inflar os reembolsos.
O que pode acontecer a partir de agora
Com as primeiras clínicas descredenciadas e os mandados de busca cumpridos, a investigação começa a tomar proporções nacionais. Representantes jurídicos das operadoras lesadas já confirmaram que os mesmos protocolos de auditoria estão sendo expandidos para estados do Nordeste, onde há suspeitas de práticas semelhantes.
Paralelamente, associações de defesa dos direitos das pessoas com autismo exigem uma atuação mais rígida da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A cobrança é para que os órgãos reguladores implementem barreiras de controle digital eficazes, impedindo que a falta de fiscalização continue servindo de terreno fértil para desvios.
A expectativa é que este caso force uma reestruturação profunda nos processos de auditoria de terapias de alta complexidade. Somente com rastreabilidade real e fiscalização presencial será possível proteger os recursos da saúde e, acima de tudo, garantir o atendimento digno e honesto a quem realmente precisa.