Representação editorial da força exportadora do agronegócio brasileiro e da dependência de fertilizantes importados.
(Imagem: gerado por IA)
O Brasil ampliou sua relevância como fornecedor global de alimentos em um cenário marcado por eventos climáticos extremos, tensões geopolíticas e volatilidade nos preços internacionais. A força produtiva, porém, convive com uma vulnerabilidade estrutural: o país ainda importa cerca de 85% dos fertilizantes usados nas lavouras, deixando produtores expostos ao câmbio, ao preço internacional dos insumos e a interrupções logísticas.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a safra brasileira de grãos em 361,7 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que as exportações do agronegócio somaram US$ 57,85 bilhões entre janeiro e agosto, alta de 9,45% em relação ao mesmo período de 2025.
Brasil ganhou papel estratégico no abastecimento mundial
O país ocupa posições de liderança em cadeias como soja, açúcar, café, suco de laranja e carne bovina. Essa presença não decorre apenas de uma safra específica, mas de ganhos de produtividade, expansão da segunda safra, adaptação de cultivares ao clima tropical e aumento da integração entre agricultura e pecuária.
Em períodos de quebra de produção em outras regiões, compradores internacionais tendem a recorrer com mais intensidade à oferta brasileira, ampliando a importância do país para a segurança alimentar mundial.
Preços globais voltaram a subir
O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) chegou a 133,3 pontos em agosto, avanço de 1,9% frente a julho, segundo dados citados na análise de mercado.
O ambiente de preços mais altos é alimentado por riscos climáticos, custos de energia, conflitos e incertezas logísticas. Para países exportadores como o Brasil, isso pode elevar receitas, mas também aumentar custos de produção.
Fertilizantes são o principal ponto de vulnerabilidade
O Brasil consome cerca de 8% da produção mundial de fertilizantes e depende de importações para aproximadamente 85% da demanda. Essa característica faz com que a rentabilidade das lavouras seja afetada simultaneamente por dois fatores: o preço internacional do adubo e a cotação do dólar.
Mesmo quando o preço externo fica estável, uma valorização da moeda norte-americana encarece fertilizantes em reais. Se ambos sobem ao mesmo tempo, o impacto sobre o custo por hectare é ainda maior.
Relação de troca piorou em 2026
Segundo estimativas do Itaú BBA citadas pelo Broadcast Agro, a quantidade de produto agrícola necessária para comprar fertilizantes aumentou neste ano. Na soja, uma tonelada de MAP passou de algo entre 25 e 30 sacas em 2025 para aproximadamente 30 a 35 sacas em 2026.
No milho, a mesma tonelada de fertilizante passou de cerca de 40 a 50 sacas para 50 a 60 sacas. A piora na relação de troca significa que o produtor precisa entregar uma parcela maior da colheita para adquirir o mesmo volume de insumos.
China continua diversificando fornecedores
A China, maior importadora mundial de soja, mantém compras relevantes no Brasil, mas também adquiriu volumes expressivos nos Estados Unidos nas últimas semanas de agosto.
Analistas avaliam que essa diversificação faz parte de uma estratégia de segurança de abastecimento. Na safra brasileira, a origem sul-americana tende a ser competitiva; na entressafra, os Estados Unidos recuperam espaço e ajudam Pequim a reduzir dependência de um único fornecedor.
Milho segunda safra entra no radar dos custos
Com boa parte das compras de fertilizantes da soja já encaminhada, a atenção do mercado se desloca para a segunda safra de milho. Nitrogenados usados nessa cultura ainda têm janela relevante de importação e reposição de estoques.
Uma escalada de conflitos no Oriente Médio, alta do petróleo ou do gás natural e problemas de transporte marítimo podem encarecer esses produtos antes do plantio da safrinha.
Arroz e feijão disputam área com culturas mais rentáveis
Enquanto commodities exportadoras apresentam margens e mercados mais amplos, culturas voltadas principalmente ao consumo interno, como arroz e feijão, enfrentam redução de área em algumas regiões tradicionais.
Especialistas interpretam o movimento como resultado da decisão econômica do produtor, que tende a direcionar terra e capital para as culturas com melhor retorno ajustado ao risco.
O desafio para políticas públicas é preservar oferta doméstica sem ignorar os incentivos econômicos enfrentados por quem produz.
Autonomia de insumos é desafio de longo prazo
Reduzir a dependência externa de fertilizantes exige investimentos em mineração, produção nacional, infraestrutura, pesquisa em fontes alternativas e uso mais eficiente dos nutrientes.
O Brasil tem escala para seguir como um dos grandes fornecedores de alimentos do mundo, mas a sustentabilidade econômica dessa posição depende também de controlar melhor os custos que hoje são definidos fora do país.
O contraste entre liderança exportadora e dependência de insumos mostra que segurança alimentar não é apenas uma questão de produzir muito. Também envolve garantir acesso competitivo a fertilizantes, energia, logística e tecnologia capazes de sustentar as próximas safras.