Abertura do Pátio do Milho no Ceasa-PE foi marcada por apresentações culturais e alta procura pelo produto.
(Imagem: gerado por IA)
As primeiras horas desta sexta-feira (5) no Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa-PE) não foram marcadas apenas pelo movimento habitual de caminhões, mas pelo som do triângulo e da sanfona que anunciam a chegada oficial do período junino. Com o "Pátio do Milho" operando a pleno vapor desde as 6h da manhã, a expectativa econômica é alta: o órgão projeta comercializar 11,5 milhões de espigas até o fim das festividades, um volume 5% superior ao registrado no ano passado.
Para quem já correu para garantir os primeiros ingredientes da pamonha e da canjica, o preço da "mão" do milho verde, equivalente a 50 espigas, oscila agora entre R$ 55,00 e R$ 65,00. Embora o valor inicial assuste quem busca economia, a lógica de mercado no Ceasa é clara: com a intensificação das colheitas nos próximos dias, a tendência é que a maior oferta force uma redução gradual nos preços, beneficiando o consumidor final.
Na prática, isso muda mais do que parece. O milho não é apenas um item da cesta básica de junho, mas o motor de uma cadeia que envolve produtores de todas as regiões do estado. Atualmente, 91% da produção ofertada vem de solo pernambucano, com destaque para municípios como Passira, Ibimirim e Gravatá, consolidando a soberania local frente a fornecedores de estados vizinhos como Paraíba e Rio Grande do Norte.
O que muda na rotina do consumidor e do revendedor
A partir do dia 15 de junho, o ritmo do Ceasa-PE sofrerá uma transformação logística profunda. Para absorver a demanda que atinge o pico nas vésperas do dia de São João, o centro passará a funcionar em regime de 24 horas. Essa operação especial se estenderá até o dia 24 de julho, garantindo que tanto o revendedor que abastece as feiras de bairro quanto a família que prefere comprar direto na fonte tenham acesso ao produto fresco a qualquer hora do dia ou da noite.
Mas o impacto vai além do horário estendido. O diretor Técnico Operacional do Ceasa-PE, Charles Gultiergue, aponta que o período atrai uma migração interna de vendedores. Comerciantes que habitualmente lidam com outros hortifrútis redirecionam seus esforços para o milho, transformando o pátio em um ecossistema focado quase exclusivamente na tradição junina. Esse movimento é essencial para dar vazão ao estoque que, em maio, já dava sinais de aquecimento.
Por que o preço atual reflete o cenário econômico do campo
E é aqui que está o ponto central: os R$ 60,00 cobrados em média neste início de junho representam uma alta de 20% em relação ao ano anterior. Esse reajuste não é arbitrário; ele reflete o custo de produção e o ritmo das chuvas no inverno nordestino. Vendedores como José Maria, de 67 anos, que veio de Glória do Goitá, relatam que o "inverno bom" garantiu a qualidade, mas a logística de trazer o produto em meio às chuvas exige planejamento e investimento redobrados.
Para o consumidor, a estratégia recomendada pelos especialistas é a paciência ou a compra antecipada para itens que podem ser processados e congelados. Thiago França, morador do Recife, já deu o primeiro passo garantindo o consumo imediato, mas planeja retornar quando o volume de vendas atingir seu ápice. Essa dinâmica de compras parceladas ajuda a equilibrar o orçamento doméstico enquanto a oferta total não atinge sua plenitude nas bancadas.
O encerramento do ciclo junino no Ceasa não é apenas um fechamento de caixa, mas a celebração de uma identidade cultural que se fortalece a cada safra. Enquanto os bacamarteiros do Alto do Moura fazem ecoar seus tiros de pólvora seca pelo pátio, fica claro que a economia do milho sustenta o fôlego financeiro de milhares de famílias rurais. A expectativa de recorde em 2026 sinaliza que, apesar das oscilações, o São João permanece como o maior evento de movimentação econômica e social de Pernambuco.