A disputa comercial com os Estados Unidos acelera a diversificação de parceiros comerciais do Brasil no mercado asiático.
(Imagem: gerado por IA)
As exportações brasileiras para os Estados Unidos registraram uma queda expressiva de 16% nos primeiros cinco meses de 2024, um reflexo direto do cerco tarifário imposto pela administração de Donald Trump. Entre janeiro e maio, o recuo nas vendas para o mercado americano sinaliza uma mudança brusca no fluxo comercial, enquanto o Brasil tenta equilibrar a balança buscando parcerias em outras latitudes.
Os dados divulgados nesta quarta-feira pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que a retração não é unilateral. As importações de produtos e serviços vindos dos EUA também caíram 12,6%, totalizando US$ 15,5 bilhões. Na prática, o Brasil amarga um déficit comercial de US$ 1,47 bilhão com Washington, em um cenário onde a corrente de comércio entre as duas nações encolheu 14,3%.
A tensão tende a aumentar nos próximos meses. O governo americano propôs recentemente uma nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, que se soma à recomendação de um tarifaço ainda maior, de 25%. A decisão final está marcada para o dia 7 de julho, mas o impacto psicológico e financeiro já dita o ritmo das indústrias nacionais.
O que muda na prática com o novo tarifaço
A ameaça de taxas que podem chegar a 25% coloca em risco cerca de 21% de tudo o que o Brasil vende para os Estados Unidos. Setores como o siderúrgico, de aeronaves e produtos manufaturados, que historicamente encontram no mercado norte-americano um porto seguro, agora enfrentam custos proibitivos e incertezas jurídicas.
Essa barreira comercial forçou uma guinada estratégica no Itamaraty e no Mdic. A diversificação de parceiros, antes uma meta de longo prazo, tornou-se uma necessidade de sobrevivência imediata. O movimento busca evitar que a dependência de um único mercado deixe o PIB brasileiro refém de mudanças políticas externas repentinas.
Mas há um lado positivo nessa turbulência. Enquanto as portas se fecham ao norte, o superávit comercial brasileiro global saltou 34,2%, atingindo a marca de US$ 32,6 bilhões até maio. Isso acontece porque, apesar da crise com os EUA, as vendas totais do Brasil para o mundo cresceram 8,7%, sustentadas por novos acordos e demandas globais.
Por que a China e a Europa ganharam protagonismo
A China consolidou-se como o grande pulmão das exportações nacionais, registrando um aumento de 21,8% no período. O gigante asiático aproveitou o vácuo deixado pelos americanos para estreitar laços, especialmente após a abertura do mercado para a carne brasileira, beneficiada pela certificação de país livre de febre aftosa sem vacinação.
O presidente Lula, em tom pragmático, resumiu a situação ao destacar que a economia global não aceita vácuos de poder ou de mercado. "Se você não quer comprar de mim, eu vou vender para outro", afirmou, sinalizando que a sorte comercial do Brasil em 2024 pode estar justamente na sua capacidade de adaptação rápida. A União Europeia também acompanhou essa tendência, com uma alta de 6,7% nas compras.
O cenário futuro depende agora da audiência de julho e da capacidade da indústria nacional de manter a competitividade em mercados onde o protecionismo não é a regra. A curto prazo, o Brasil parece ter encontrado na Ásia o fôlego necessário para ignorar o muro comercial que Washington tenta erguer, transformando um revés diplomático em uma oportunidade de expansão global.