Produção de etanol no Brasil é alvo de investigação comercial pelos Estados Unidos.
(Imagem: gerado por IA)
A ameaça de uma tarifa punitiva de 25% sobre as exportações brasileiras acendeu um alerta vermelho no setor produtivo nacional. Em resposta direta ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), as principais entidades de bioenergia do Brasil decidiram quebrar o silêncio e expor o que consideram uma contradição na política externa de Washington.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Bioenergia Brasil vieram a público para esclarecer que a taxação aplicada ao etanol importado não é um ataque deliberado aos produtores norte-americanos. Na verdade, trata-se do cumprimento rigoroso da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul, uma regra que rege o bloco sul-americano e que, segundo as entidades, o governo Biden parece ignorar ao tentar forçar uma abertura unilateral.
Essa tensão diplomática e comercial não surgiu por acaso. O estopim foi uma investigação iniciada em meados de 2025, na qual o governo dos EUA acusa o Brasil de práticas "irrazoáveis". A lista de reclamações é extensa e vai desde o sucesso do Pix e serviços de pagamentos eletrônicos até questões de propriedade intelectual e combate ao desmatamento ilegal. Na prática, o que está em jogo é o equilíbrio de forças entre as duas maiores potências agrícolas do continente.
O que está por trás da retaliação norte-americana
O argumento central do USTR é que o Brasil estaria restringindo o acesso do etanol estadunidense, gerando prejuízos financeiros para suas empresas. No entanto, o setor brasileiro rebateu com dados contundentes sobre o que chamam de protecionismo histórico dos Estados Unidos. Enquanto pedem livre acesso para seu combustível aqui, eles mantêm barreiras quase intransponíveis para o açúcar brasileiro.
A nota conjunta das entidades destaca que o sistema de cotas norte-americano é tão restritivo que as exportações de açúcar do Brasil para lá representam menos de 1% do total vendido pelo país ao mundo. É um cenário de "via de mão única" que as entidades não pretendem aceitar sem resistência, especialmente quando o Brasil é cobrado por seguir regras comerciais legítimas e internacionais.
Como isso afeta a agenda ambiental global
Para além dos cifrões, existe uma questão de sustentabilidade que coloca o Brasil em uma posição de vantagem técnica. O etanol nacional é reconhecido como um dos biocombustíveis mais eficientes do planeta para a descarbonização dos transportes. Ao atacar comercialmente o setor, os Estados Unidos acabam criando barreiras para a própria transição energética que defendem em fóruns mundiais.
Na prática, isso muda mais do que parece. O combustível brasileiro possui critérios de sustentabilidade auditáveis e uma pegada de carbono significativamente menor que muitos de seus concorrentes. Bloquear ou punir esse mercado é, de certa forma, desacelerar os esforços globais contra o aquecimento global, um ponto que a Unica e a Bioenergia Brasil fizeram questão de sublinhar com autoridade.
O desfecho desse embate ainda depende de uma condução diplomática firme. A expectativa é que o governo brasileiro utilize o diálogo para evitar que uma guerra tarifária prejudique relações históricas. No entanto, o recado do setor de bioenergia foi claro: o país não recuará na defesa de seus interesses estratégicos e não aceitará ser punido por exercer sua soberania comercial dentro das normas globais.