O Hangar Náutico da UFRJ será a sede da nova Universidade do Mar, focada em sustentabilidade e economia naval.
(Imagem: gerado por IA)
A Baía de Guanabara deixa de ser apenas um cenário geográfico para se tornar, oficialmente, um polo de transformação social. Na próxima sexta-feira (17), o lançamento do Centro de Formação em Economia do Mar Baía de Guanabara marca o nascimento da tão aguardada Universidade do Mar, um projeto que une o Movimento Baía Viva, o núcleo Nides da UFRJ e a Petrobras para capacitar moradores de sete municípios fluminenses.
Sediado no histórico Hangar Náutico da UFRJ, na Ilha do Fundão, o centro não é apenas uma escola técnica, mas uma resposta concreta à vulnerabilidade socioeconômica de comunidades tradicionais. Pescadores, indígenas e quilombolas terão prioridade em uma formação que mistura tradição e inovação, focada em sustentabilidade e geração de renda real.
O projeto é a culminação de um sonho que remonta a 1984. O movimento ganhou fôlego em 2018, quando uma coalizão inédita reuniu 104 cartas de apoio institucional de quase todas as reitorias do Rio de Janeiro, incluindo UFRJ, UFF, Uerj e Fiocruz. Na prática, isso muda mais do que parece: é a ciência saindo dos laboratórios para dialogar diretamente com quem vive e depende do mar.
O que muda na prática para as comunidades costeiras
A estrutura física do Hangar Náutico passará por reformas imediatas para oferecer alojamento, refeitório e salas de aula capazes de receber até 120 alunos por turno. O impacto vai além da sala de aula, pois o projeto prevê a oferta de cursos gratuitos de extensão com certificação oficial da UFRJ, válidos em todo o território nacional, o que confere autoridade e novas oportunidades no mercado de trabalho para os alunos.
Entre as oficinas mais aguardadas está a de Aprendiz da Carpintaria Naval Artesanal. E é aqui que está o ponto central: o resgate de um saber que está morrendo, a construção e reforma de embarcações de madeira. Mestres artesãos trabalharão ao lado de pesquisadores para garantir que essa tecnologia ancestral não desapareça, devolvendo autonomia aos pescadores artesanais que hoje dependem de poucos especialistas.
Por que isso importa para o desenvolvimento regional
A iniciativa não se limita ao ensino técnico convencional. Uma equipe de bolsistas e pesquisadores realizará um diagnóstico participativo em cidades como Itaboraí, Magé, São Gonçalo e Duque de Caxias para mapear políticas públicas e iniciativas da sociedade civil. O objetivo é criar um Arranjo Produtivo Local Sustentável, conectando a bioeconomia à mesa do trabalhador de forma inteligente e integrada.
Além da carpintaria, o portfólio de cursos inclui desde mecânica de motores e operação de drones até turismo de base comunitária e tecnologias sociais para mulheres pescadoras. Essa diversidade reflete a complexidade da vida na Baía: para preservar o ecossistema, é preciso primeiro garantir a sobrevivência digna de quem o protege. Mas o impacto vai além da renda, tocando na identidade cultural dessas populações.
Com a retomada dos editais socioambientais, o Centro de Formação projeta suas ações até 2028, estabelecendo um legado que pretende transformar a Baía de Guanabara em um modelo de economia regenerativa. O futuro da região agora passa, obrigatoriamente, pelo conhecimento compartilhado e pela valorização do saber tradicional frente aos desafios climáticos e econômicos que o estado enfrenta.