O querosene de aviação agora representa quase metade dos custos operacionais das companhias aéreas no Brasil.
(Imagem: gerado por IA)
Planejar as próximas férias pode se tornar um desafio financeiro inesperado nos próximos meses. Com o anúncio de um reajuste superior a 50% no preço médio do querosene de aviação (QAV) pela Petrobras, o setor aéreo brasileiro entra em estado de alerta, e a previsão é amarga para o consumidor: o valor das passagens aéreas pode dobrar em curto prazo.
Esse movimento não é isolado e reflete uma tempestade perfeita no cenário global. O fechamento estratégico do Estreito de Ormuz, ao norte do Irã, um dos gargalos mais vitais para o escoamento de petróleo no mundo, desencadeou uma reação em cadeia que elevou a demanda e o preço dos combustíveis em escala planetária. Na prática, isso muda o planejamento de quem depende do transporte aéreo para lazer ou trabalho.
A situação é agravada pela dependência brasileira de variáveis externas. Como o QAV é uma commodity negociada internacionalmente, a valorização constante do dólar frente ao real e as pesadas taxas tributárias cambiais impostas pelo governo criam uma barreira de custos que as companhias já não conseguem absorver sozinhas.
O impacto real no custo operacional das empresas
Até pouco tempo, o combustível representava cerca de 30% dos custos totais de um voo comercial no Brasil. No entanto, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), esse patamar subiu drasticamente para 45%. Para se ter uma ideia da magnitude desse consumo, um Boeing 747 queima aproximadamente 4 litros de combustível por segundo. Em um voo de 10 horas, o consumo ultrapassa a marca de 150 mil litros.
Mas o impacto vai além da simples queima de combustível. A disparada do petróleo tipo Brent, que saltou de US$ 70 no final de fevereiro para quase US$ 110 em abril, forçou as estatais a repassarem os custos quase que imediatamente. Esse cenário de volatilidade expõe uma fragilidade estrutural do mercado nacional, que se vê refém de conflitos geopolíticos distantes, mas com efeitos financeiros imediatos no bolso do cidadão.
Por que o setor aéreo brasileiro é tão vulnerável
E é aqui que está o ponto central da questão. Para especialistas como Carlos Honorato, economista da FIA Business School, o Brasil carece de mecanismos de proteção contra choques internacionais. Além da variação do barril de petróleo, a complexidade tributária e os custos de gestão interna tornam a operação aérea no país uma das mais caras e arriscadas do mundo.
A soma de impostos elevados com a falta de uma política de estabilização para o querosene de aviação deixa as companhias sem margem de manobra. Quando o custo sobe 50% na refinaria, a única saída para manter a viabilidade das rotas é o repasse tarifário. Isso significa que voos que hoje são considerados acessíveis podem ser restringidos a uma parcela muito menor da população em um futuro próximo.
O cenário sugere que a era das passagens promocionais e do crescimento acelerado da malha aérea pode sofrer uma pausa forçada. Enquanto as tensões no Oriente Médio não arrefecerem e a política de preços interna não encontrar um equilíbrio, o passageiro brasileiro continuará pagando a conta de uma crise que começa a milhares de quilômetros de distância, mas termina na fatura do cartão de crédito.