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Pisa: Brasil encurta distância para países ricos na educação, mas atraso em matemática ainda preocupa

O Brasil reduziu a diferença de desempenho educacional frente aos países ricos nas últimas duas décadas, mas ainda enfrenta um atraso de 4 anos em matemática.

08 set 2026 - 08h21 Joice Gomes   atualizado às 08h26
Pisa: Brasil encurta distância para países ricos na educação, mas atraso em matemática ainda preocupa Estudantes brasileiros de 15 anos avaliados pelo Pisa 2025 mostram evolução histórica, mas desafios estruturais persistem nas escolas públicas. (Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

A distância que separa as salas de aula brasileiras do padrão de excelência das nações mais ricas do mundo está diminuindo de forma consistente. O mais recente relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2025, divulgado nesta terça-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), traz um diagnóstico de resiliência e avanço histórico para a educação do país. Embora o desempenho absoluto do Brasil ainda o mantenha abaixo da média global, a trajetória de aproximação revela um esforço estrutural nas últimas duas décadas que não pode ser ignorado.

Na prática, o abismo que parecia intransponível começou a dar sinais de retração. Ao analisar a evolução histórica entre os ciclos de 2006 e 2025, a diferença média de pontuação do Brasil em relação à OCDE caiu drasticamente nas três áreas avaliadas: leitura, matemática e ciências. Em leitura, por exemplo, a diferença recuou de 102 para 58 pontos, uma redução expressiva de 44 pontos que reposiciona o potencial de interpretação de texto de nossos estudantes de 15 anos.

Mas o impacto vai além dos números frios de uma tabela comparativa. O exame, que avaliou 760 mil jovens em 91 nações, expõe um gargalo pedagógico severo que ainda compromete o futuro econômico do país: a proficiência exata. Com 377 pontos em matemática, contra a média de 469 da OCDE, estima-se que o jovem brasileiro esteja cerca de 4,6 anos de atraso em escolaridade em relação aos seus pares globais.

Como isso afeta o futuro dos jovens nas salas de aula

O fato de o Brasil ter mantido estabilidade nas notas após a maior crise sanitária e educacional deste século é, por si só, uma vitória. Enquanto a maior parte das nações ricas ainda patina para recuperar o aprendizado perdido durante a pandemia, o sistema educacional brasileiro mostrou uma recuperação mais robusta. O país não apenas superou o patamar pré-pandemia em ciências, subindo para 409 pontos, como registrou perdas significativamente menores em leitura e matemática.

E é aqui que está o ponto central dessa transição: a rede estadual de ensino foi a grande protagonista desse cenário. Dos mais de 30 mil estudantes que representaram o Brasil na amostra, 72,4% pertencem a escolas estaduais, majoritariamente localizadas em centros urbanos. O avanço em ciências, que recebeu destaque analítico nesta edição, reflete uma juventude que, apesar de enfrentar desigualdades de infraestrutura, demonstra forte curiosidade acadêmica e perseverança no ambiente de ensino.

O impacto real do banimento de celulares nas escolas

Fora dos livros didáticos, uma mudança drástica de comportamento chamou a atenção dos avaliadores internacionais. O Pisa 2025 revelou que 81% dos estudantes brasileiros frequentam escolas onde há restrições severas ao uso de aparelhos celulares. Em 2022, esse percentual era de apenas 37%. Esse salto coloca o Brasil muito acima da média de restrição da OCDE, que é de apenas 49%.

A decisão, impulsionada por marcos legais como a Lei 15.100/2025, combate diretamente a distração digital em sala de aula, fator que a própria OCDE já apontou como um dos maiores vilões modernos do rendimento escolar. O Ministério da Educação associa essa postura ao aumento do foco e à valorização do tempo produtivo dos alunos dentro do ambiente escolar.

Na prática, isso muda mais do que parece. O questionário contextual indicou que a valorização da escola se traduz diretamente em notas melhores: jovens que rechaçam a ideia de que a escola é uma perda de tempo obtêm, em média, 35 pontos a mais em ciências, uma diferença pedagógica equivalente a quase dois anos de escolaridade formal.

O que está por trás do engajamento digital e ambiental dos brasileiros

A nova edição também inaugurou a avaliação do domínio "Aprendizagem no Mundo Digital", focando em como os alunos utilizam ferramentas de informática para resolver problemas reais. Nesse quesito, o Brasil registrou 406 pontos, ficando distante dos 500 pontos obtidos pela OCDE. Esse dado joga luz sobre a urgência de uma digitalização que seja pedagógica, e não meramente recreativa, na rotina dos adolescentes.

Curiosamente, o aspecto que mais distingue o estudante brasileiro no cenário mundial é a consciência social. Impressionantes 84% dos jovens avaliados acreditam que podem impactar positivamente o meio ambiente, e 87% apostam na força da ação coletiva para responder a desafios globais. Esse espírito de grupo e liderança comunitária é um ativo cultural que supera com folga as médias dos países mais ricos do globo.

O futuro da educação brasileira agora depende da capacidade de converter essa resiliência em reformas profundas. O caminho traçado nas últimas duas décadas prova que o país é capaz de encurtar distâncias históricas. Contudo, sem um choque de investimento na formação de professores e na modernização curricular da matemática, a promessa de igualdade educacional continuará esbarrando nas barreiras do desenvolvimento econômico global.

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