Estudantes brasileiros de 15 anos avaliados pelo Pisa 2025 mostram evolução histórica, mas desafios estruturais persistem nas escolas públicas.
(Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
A distância que separa as salas de aula brasileiras do padrão de excelência das nações mais ricas do mundo está diminuindo de forma consistente. O mais recente relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2025, divulgado nesta terça-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), traz um diagnóstico de resiliência e avanço histórico para a educação do país. Embora o desempenho absoluto do Brasil ainda o mantenha abaixo da média global, a trajetória de aproximação revela um esforço estrutural nas últimas duas décadas que não pode ser ignorado.
Na prática, o abismo que parecia intransponível começou a dar sinais de retração. Ao analisar a evolução histórica entre os ciclos de 2006 e 2025, a diferença média de pontuação do Brasil em relação à OCDE caiu drasticamente nas três áreas avaliadas: leitura, matemática e ciências. Em leitura, por exemplo, a diferença recuou de 102 para 58 pontos, uma redução expressiva de 44 pontos que reposiciona o potencial de interpretação de texto de nossos estudantes de 15 anos.
Mas o impacto vai além dos números frios de uma tabela comparativa. O exame, que avaliou 760 mil jovens em 91 nações, expõe um gargalo pedagógico severo que ainda compromete o futuro econômico do país: a proficiência exata. Com 377 pontos em matemática, contra a média de 469 da OCDE, estima-se que o jovem brasileiro esteja cerca de 4,6 anos de atraso em escolaridade em relação aos seus pares globais.
Como isso afeta o futuro dos jovens nas salas de aula
O fato de o Brasil ter mantido estabilidade nas notas após a maior crise sanitária e educacional deste século é, por si só, uma vitória. Enquanto a maior parte das nações ricas ainda patina para recuperar o aprendizado perdido durante a pandemia, o sistema educacional brasileiro mostrou uma recuperação mais robusta. O país não apenas superou o patamar pré-pandemia em ciências, subindo para 409 pontos, como registrou perdas significativamente menores em leitura e matemática.
E é aqui que está o ponto central dessa transição: a rede estadual de ensino foi a grande protagonista desse cenário. Dos mais de 30 mil estudantes que representaram o Brasil na amostra, 72,4% pertencem a escolas estaduais, majoritariamente localizadas em centros urbanos. O avanço em ciências, que recebeu destaque analítico nesta edição, reflete uma juventude que, apesar de enfrentar desigualdades de infraestrutura, demonstra forte curiosidade acadêmica e perseverança no ambiente de ensino.
O impacto real do banimento de celulares nas escolas
Fora dos livros didáticos, uma mudança drástica de comportamento chamou a atenção dos avaliadores internacionais. O Pisa 2025 revelou que 81% dos estudantes brasileiros frequentam escolas onde há restrições severas ao uso de aparelhos celulares. Em 2022, esse percentual era de apenas 37%. Esse salto coloca o Brasil muito acima da média de restrição da OCDE, que é de apenas 49%.
A decisão, impulsionada por marcos legais como a Lei 15.100/2025, combate diretamente a distração digital em sala de aula, fator que a própria OCDE já apontou como um dos maiores vilões modernos do rendimento escolar. O Ministério da Educação associa essa postura ao aumento do foco e à valorização do tempo produtivo dos alunos dentro do ambiente escolar.
Na prática, isso muda mais do que parece. O questionário contextual indicou que a valorização da escola se traduz diretamente em notas melhores: jovens que rechaçam a ideia de que a escola é uma perda de tempo obtêm, em média, 35 pontos a mais em ciências, uma diferença pedagógica equivalente a quase dois anos de escolaridade formal.
O que está por trás do engajamento digital e ambiental dos brasileiros
A nova edição também inaugurou a avaliação do domínio "Aprendizagem no Mundo Digital", focando em como os alunos utilizam ferramentas de informática para resolver problemas reais. Nesse quesito, o Brasil registrou 406 pontos, ficando distante dos 500 pontos obtidos pela OCDE. Esse dado joga luz sobre a urgência de uma digitalização que seja pedagógica, e não meramente recreativa, na rotina dos adolescentes.
Curiosamente, o aspecto que mais distingue o estudante brasileiro no cenário mundial é a consciência social. Impressionantes 84% dos jovens avaliados acreditam que podem impactar positivamente o meio ambiente, e 87% apostam na força da ação coletiva para responder a desafios globais. Esse espírito de grupo e liderança comunitária é um ativo cultural que supera com folga as médias dos países mais ricos do globo.
O futuro da educação brasileira agora depende da capacidade de converter essa resiliência em reformas profundas. O caminho traçado nas últimas duas décadas prova que o país é capaz de encurtar distâncias históricas. Contudo, sem um choque de investimento na formação de professores e na modernização curricular da matemática, a promessa de igualdade educacional continuará esbarrando nas barreiras do desenvolvimento econômico global.