Comunidades ribeirinhas e urbanas enfrentam isolamento e escassez de recursos devido à redução drástica dos rios na Amazônia.
(Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
A crise climática deixou de ser uma ameaça abstrata e bateu diretamente à porta de mais de um terço das populações da Amazônia durante o último El Niño. Ao todo, 38% das ocupações humanas na maior floresta tropical do mundo enfrentaram alta exposição à seca severa e ao calor extremo desencadeados pelo fenômeno.
De acordo com um estudo detalhado divulgado pelo MapBiomas, das 5.673 localidades habitadas analisadas na região, 2.172 sofreram de forma dramática os impactos diretos da estiagem prolongada. O cenário expõe a vulnerabilidade de milhares de famílias que dependem intimamente da saúde dos ecossistemas locais.
O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Tropical, bagunçou a circulação atmosférica e tornou o regime de chuvas completamente irregular. Na prática, o que se viu em solo amazônico foi uma combinação sufocante de rios vazios e termômetros nas alturas.
O que muda na prática para as populações locais
A vida cotidiana nessas comunidades mudou de forma drástica, com o isolamento geográfico e o desabastecimento de itens básicos. Os dados revelam que impressionantes 93% dos pontos habitados avaliados ficam a uma distância de até 5 quilômetros de áreas que registraram perda de superfície de água.
“A seca se manifesta na redução severa dos níveis dos rios, com consequências diretas para o transporte, o acesso à água potável, a pesca e outras atividades de subsistência”, explica o pesquisador Bruno Ferreira, do Imazon e integrante da equipe do MapBiomas.
Durante os meses mais críticos, entre setembro e novembro, a superfície de água da Amazônia encolheu 1,9 milhão de hectares em relação à média histórica registrada desde 1985. Para piorar o quadro, o volume de chuvas despencou 27% abaixo do esperado, enquanto as temperaturas máximas saltaram 2,6ºC acima da média histórica.
Por que a floresta perdeu a capacidade de se defender
Mas o impacto do clima vai muito além da dinâmica natural do oceano; ele é potencializado pela degradação da própria floresta. Ao longo de pouco mais de quatro décadas, a Amazônia perdeu cerca de 3,9 milhões de hectares de sua vegetação nativa, o que representa um desfalque de 14% na cobertura verde original.
Sem essa barreira protetora de árvores, o solo perde umidade muito mais rápido. O estresse hídrico da vegetação se acentua, criando um ciclo de desgaste em que a floresta enfraquecida evapora menos água e contribui para que as secas seguintes sejam ainda mais severas.
Para chegar a essas conclusões, os cientistas do MapBiomas realizaram um sofisticado cruzamento de dados de satélite sobre cobertura do solo, recursos hídricos e condições atmosféricas, cruzando-os com dados populacionais do IBGE e previsões do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
O que pode acontecer a partir de agora
O fantasma de novos eventos extremos continua a rondar a região, especialmente com as projeções globais apontando para a possibilidade de El Niños ainda mais intensos no futuro. Se o ritmo de desmatamento e degradação persistir, o isolamento de comunidades ribeirinhas e indígenas tende a se tornar o novo normal.
Mitigar esses danos exige ações urgentes de conservação ambiental combinadas com políticas robustas de adaptação climática para as populações locais. Preservar a Amazônia em pé não é apenas uma bandeira ecológica, mas uma medida vital de segurança social e sobrevivência para quem faz da floresta o seu lar.