A rainha Francisca Dias, a Rainha Preta, lidera o tradicional maçambique quilombola em apresentação nacional.
(Imagem: Beatriz Braga/Divulgação)
Quando Francisca Dias, de 65 anos, sobe ao palco no coração de Brasília, ela carrega muito mais do que vestes coloridas e instrumentos artesanais. Conhecida como Rainha Ginga Preta, a líder do maçambique de Osório, uma tradicional congada de matriz africana bantu do Rio Grande do Sul, apresenta ao público uma faceta do país que muitos insistem em ignorar: a vibrante e histórica presença negra no extremo sul brasileiro. Esse resgate da rica cultura popular é o fio condutor de um movimento nacional que busca reconectar as novas gerações com suas próprias raízes rituais.
A manifestação do maçambique, preservada pela comunidade quilombola do Morro Alto desde o século 19, é um testemunho vivo de resiliência coletiva. Ali, a tradição é repassada de forma estritamente comunitária, integrando desde crianças pequenas até os anciãos do quilombo. Tudo o que o grupo utiliza, das vestimentas sagradas às maçacaias cestos de taquara com sementes de caeté, é confeccionado pelas mãos dos próprios moradores, mantendo viva uma herança artística singular.
Na prática, essa transição de saberes é mais profunda do que parece. Para a Rainha Preta, a viagem à capital federal representa a realização de um sonho de visibilidade, mas também um ato político de enfrentamento ao preconceito. Ela relata que a existência de comunidades negras em terras gaúchas ainda causa estranhamento, o que evidencia a necessidade de circulação dessas vivências pelo país.
O que está por trás do silenciamento de nossas raízes
O caso do maçambique de Osório não é isolado em nosso vasto território. O Encontro de Mestres reuniu em Brasília manifestações de 11 estados diferentes, desenhando um mosaico de matrizes negras, indígenas e europeias que definem a musicalidade brasileira. A curadoria do evento destaca que o grande desafio atual não é apenas manter esses grupos ativos em suas terras de origem, mas disputar o interesse das novas gerações contra o consumo acelerado de telas digitais.
Mas o impacto vai além da música e do ritmo. Nas comunidades onde essas tradições são fortes, o apelo da tecnologia dá lugar à vivência comunitária de forma espontânea. Durante as celebrações do maçambique, o uso de celulares é deixado de lado e o compromisso de honrar os ancestrais fala mais alto. Francisca Dias herdou o trono de sua mãe, Severina Dias, sob a promessa de nunca deixar a congada se apagar, um pacto de amor que agora reverbera nacionalmente.
Como a valorização prática transforma comunidades
A preocupação com a continuidade histórica também ecoa no trabalho de Tião Carvalho, músico e educador maranhense de 71 anos. Fundador do Grupo Cupuaçu, Carvalho mistura ritmos do Nordeste, como o bumba-meu-boi, e defende que o fomento à cultura popular deve ser encarado como política pública contínua, e não apenas ações sazonais de entretenimento.
Ele argumenta que o jovem brasileiro se apaixona pelas manifestações tradicionais quando tem a oportunidade real de vivenciá-las de perto. Contudo, a escassez de recursos e a falta de visibilidade em comparação com produções de apelo estritamente comercial ainda são os maiores obstáculos para esses grupos periféricos e rurais.
O que pode acontecer a partir de agora
O fortalecimento de redes de transmissão oral indica um horizonte de renovação para o patrimônio imaterial brasileiro. À medida que essas manifestações ganham palcos de grande circulação, a expectativa é de que o respeito à diversidade cultural avance de forma sólida, consolidando a identidade nacional. Essa aproximação entre o passado ancestral e o futuro das novas gerações é o que garante que nossa história continue a ser contada por suas próprias vozes.